{"id":1141,"date":"2021-03-02T13:03:22","date_gmt":"2021-03-02T16:03:22","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=1141"},"modified":"2026-01-23T20:17:21","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:21","slug":"o-tumor-de-uma-cadela-e-sua-despedida-na-clinica-veterinaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/2021\/03\/02\/o-tumor-de-uma-cadela-e-sua-despedida-na-clinica-veterinaria\/","title":{"rendered":"O tumor de uma cadela e sua despedida na cl\u00ednica veterin\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Dona Ana entrou no consult\u00f3rio com seu primog\u00eanito, uma crian\u00e7a com 12 anos de idade. Artur trazia nos bra\u00e7os a Baby toda envolvida por um len\u00e7ol, sendo poss\u00edvel visualizar apenas seu rosto. Baby era uma cadela Pinscher, tamb\u00e9m com 12 anos. A anamnese transcorreu tranquila, e dona Ana contou que nos \u00faltimos dois anos haviam falecido seu pai e seu ex-marido, pai de seus dois filhos. Baby possu\u00eda um c\u00e2ncer de mama, que estava crescendo h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedi ao seu filho que colocasse Baby na mesa para o exame. A crian\u00e7a posicionou a cadela e se afastou. Quando retirei o len\u00e7ol que a envolvia, o menino soltou um profundo gemido e come\u00e7ou a chorar ao ver aquele grande tumor presente no animal. Sua m\u00e3e o repreendeu para que n\u00e3o olhasse para a cadela. Baby era um animal pequeno, cujo n\u00f3dulo mam\u00e1rio com grande presen\u00e7a de tecido morto representava cerca de 20% de seu peso corporal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s avalia\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o de exames necess\u00e1rios, Baby permaneceu internada, sendo operada no dia seguinte para retirada do tumor mam\u00e1rio. Ana retornava ao hospital, agora sem seu filho, mas extremamente preocupada e disposta a fazer o que fosse necess\u00e1rio por sua companheira. Baby apresentou s\u00e9rias complica\u00e7\u00f5es durante o procedimento cir\u00fargico e o per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o, indo a \u00f3bito no final do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Ana ficou extremamente abalada, chorou muito e mal conseguia respirar, teve sensa\u00e7\u00f5es de desmaio e poss\u00edvel queda de press\u00e3o. A auxiliamos a deitar no ch\u00e3o, com as pernas sobre uma cadeira, e permanecemos ao seu lado. Minha colega Mariana, de m\u00e3os dadas com Ana, foi conversando com ela, contando cada uma das respira\u00e7\u00f5es, perguntando hist\u00f3rias da Baby e do per\u00edodo que permaneceram juntas. Ap\u00f3s Ana se recuperar, a levamos para casa, a fim de que pudesse chegar em seguran\u00e7a. Meu colega foi dirigindo ao seu lado, e eu com o corpo de Baby em meu colo, no banco de tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana, Baby e Artur com toda minha equipe de trabalho me trouxeram grandes li\u00e7\u00f5es. Ana contou que estava em tratamento psiqui\u00e1trico, pois vivenciou forte depress\u00e3o, chegando em dado momento a pensar em suic\u00eddio. Ainda estava muito abalada por tudo o que havia vivido com sua fam\u00edlia. Ana conheceu a Baby quando estava gr\u00e1vida do Artur, sendo uma grande companheira durante a gravidez e toda a inf\u00e2ncia de seu filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Ana, ao sair de casa naquele dia, prometeu ao seu filho que n\u00e3o faria a eutan\u00e1sia de Baby. Ap\u00f3s a cirurgia, quando chegou ao hospital, contei sobre o grave quadro de Baby e que se n\u00f3s a tir\u00e1ssemos do oxig\u00eanio poderia n\u00e3o sobreviver. Ana n\u00e3o hesitou, pediu para transportar Baby at\u00e9 uma nova cl\u00ednica onde passaria pelo plant\u00e3o noturno. Fizemos a primeira tentativa de retirar a m\u00e1scara de oxig\u00eanio, mas Baby mostrou sinais de que n\u00e3o resistiria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois colegas de trabalho pediram para conversar com dona Ana, e qu\u00e3o me surpreenderam ao falarem para ela que n\u00e3o escolher pela eutan\u00e1sia poderia ser uma decis\u00e3o ego\u00edsta. Dona Ana permaneceu firme em sua decis\u00e3o, se despediu da Baby, conversou com ela e a acariciou. Antes que a cadela chegasse \u00e0 porta da unidade de terapia intensiva, teve seus batimentos card\u00edacos e movimentos respirat\u00f3rios reduzidos, anunciando a morte de seu corpo f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Baby era um dos amores de Ana e Artur, e quando se cuida do amor de algu\u00e9m, de uma vida, seja ela qual esp\u00e9cie for, esse cuidado tamb\u00e9m deve ser coberto por muito amor. Com Ana, pude vivenciar um grande espa\u00e7o de escuta, de compreens\u00e3o e empatia por sua hist\u00f3ria, pelas perdas e dores que trazia.<\/p>\n\n\n\n<p>O respeito \u00e0 escolha do outro deve se manifestar sempre e vir \u00e0 frente de qualquer decis\u00e3o. A autonomia em sa\u00fade significa que o paciente ou familiar tem o direito de escolher qual tratamento deseja. O princ\u00edpio de n\u00e3o julgamento deve estar sempre presente. Em breve avalia\u00e7\u00e3o, qualquer m\u00e9dico-veterin\u00e1rio poderia diagnosticar maus-tratos pelo grande tumor de Baby, no entanto, como exigir de algu\u00e9m cuidar do outro quando talvez n\u00e3o haja for\u00e7as sequer para cuidar de si mesmo? Dona Ana, bem como toda equipe profissional, atuou da melhor forma que foi poss\u00edvel a cada um. Nas despedidas que a vida nos proporciona, aprendemos ainda mais a respeit\u00e1-la, em sua manifesta\u00e7\u00e3o t\u00e3o diversa. Diante desse aprendizado, h\u00e1 o in\u00edcio de novas hist\u00f3rias, escritas n\u00e3o mais pelos mesmos autores, mas por Esp\u00edritos que puderam tamb\u00e9m se renovar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Beatriz Furlan Paz<\/strong> \u00e9 m\u00e9dica-veterin\u00e1ria, com forma\u00e7\u00e3o e resid\u00eancia pela Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia e forma\u00e7\u00e3o em cuidados paliativos pelo Instituto PAV. Atualmente, \u00e9 mestranda em cirurgia veterin\u00e1ria pela Unesp de Jaboticabal. \u00c9 cofundadora do N\u00facleo de Medicina Veterin\u00e1ria e Espiritualidade da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Esp\u00edrita de Uberl\u00e2ndia; \u00e9 membro do N\u00facleo de Medicina Veterin\u00e1ria e Espiritualidade da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Esp\u00edrita do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: 30 -\u201cAs principais pandemias ao longo da hist\u00f3ria e suas repercuss\u00f5es na sa\u00fade integral do ser humano\u201d, com dr. Vicente Pessoa \" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1W32BSmsqY19NCZodquiNB?si=ITZHIo4mRoSfXIDolUC0Ow&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dona Ana entrou no consult\u00f3rio com seu primog\u00eanito, uma crian\u00e7a com 12 anos de idade. Artur trazia nos bra\u00e7os a Baby toda envolvida por um len\u00e7ol, sendo poss\u00edvel visualizar apenas seu rosto. Baby era uma cadela Pinscher, tamb\u00e9m com 12 anos. A anamnese transcorreu tranquila, e dona Ana contou que nos \u00faltimos dois anos haviam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":1200,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[236,238,237],"edicoes":[232],"class_list":["post-1141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diario-de-um-medico-espirita","tag-associacao-medico-espirita-de-uberlandia","tag-beatriz-furlan-paz","tag-medicina-veterinaria","edicoes-564-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1141"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1288,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141\/revisions\/1288"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1141"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=1141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}