{"id":4726,"date":"2023-04-08T21:16:32","date_gmt":"2023-04-09T00:16:32","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=4726"},"modified":"2026-01-23T20:17:10","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:10","slug":"ambiente-social-que-estimula-a-violencia-reflete-ataques-a-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/2023\/04\/08\/ambiente-social-que-estimula-a-violencia-reflete-ataques-a-escolas\/","title":{"rendered":"\u201cSocial environment that encourages violence reflects attacks on schools\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/br.linkedin.com\/in\/telma-vinha-4b9a50159\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Telma Vinha<\/a> (foto) \u00e9 pedagoga, doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp e professora do Departamento de Psicologia Educacional da mesma institui\u00e7\u00e3o. Desenvolve pesquisas sobre clima escolar, problemas de conviv\u00eancia, rela\u00e7\u00f5es interpessoais e desenvolvimento sociomoral e emocional. \u00c9 coordenadora do Grupo de Estudos sobre \u00c9tica, Diversidade e Democracia na Escola P\u00fablica do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Unicamp (IdEA) e coordenadora associada do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o Moral (GEPEM). Tamb\u00e9m coordena e desenvolve forma\u00e7\u00f5es e projetos em escolas que visam \u00e0 melhoria da qualidade da conviv\u00eancia e do clima escolar, favorecendo a constru\u00e7\u00e3o da autonomia. Autora e coautora de artigos e livros, entre eles <em>Quando a escola \u00e9 democr\u00e1tica: um olhar sobre a pr\u00e1tica de regras e assembleias na escola<\/em>; <em>Indisciplina, conflitos e bullying na escola;<\/em> <em>Da escola para a vida em sociedade: o valor da conviv\u00eancia democr\u00e1tica<\/em>. Telma conversou com a <em>Spirit Sheet<\/em> sobre o estudo que divulgou recentemente a respeito dos ataques de viol\u00eancia extrema em escolas no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses ataques? Existe uma explica\u00e7\u00e3o para eles? H\u00e1 um perfil de quem pratica esse tipo de viol\u00eancia? Qual a motiva\u00e7\u00e3o que est\u00e1 por tr\u00e1s dela? A professora discute o uso de armas, a comunica\u00e7\u00e3o violenta, a Internet, a fam\u00edlia e a influ\u00eancia que cada um exerce nesses epis\u00f3dios e aponta os caminhos para mudan\u00e7as urgentes que precisam ocorrer nas pol\u00edticas p\u00fablicas e na sociedade como um todo para que tenhamos dias melhores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><strong>FOTO: ANTONINHO PERRI \/ UNICAMP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Telma-Vinha__foto-Antoninho-Perri_Unicamp.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4727\" width=\"844\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Telma-Vinha__foto-Antoninho-Perri_Unicamp.jpg 539w, https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Telma-Vinha__foto-Antoninho-Perri_Unicamp-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 844px) 100vw, 844px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Folha Esp\u00edrita \u2013 Telma, voc\u00ea e a mestranda Cl\u00e9o Garcia, ambas da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp, acabaram de divulgar um estudo sobre ataques de viol\u00eancia extrema nas escolas do Brasil. Ele chegou praticamente ao mesmo tempo de um ataque ocorrido no final de mar\u00e7o na Zona Oeste da capital paulista. Hoje, justamente no dia no qual estava marcada esta entrevista, tivemos mais um epis\u00f3dio em uma creche em Blumenau\/SC que deixou quatro crian\u00e7as mortas. O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses ataques?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma Vinha \u2013<\/strong> Esse estudo j\u00e1 estava em andamento antes do que aconteceu em S\u00e3o Paulo. Ele teve in\u00edcio em 2019, na \u00e9poca do ataque em Suzano, depois houve o de Aracruz. Acompanhamos esse processo, e o estudo indicava que novos ataques em escolas iriam acontecer. Investigamos o que chamamos de viol\u00eancia extrema na escola, cometida por estudantes. O que aconteceu hoje n\u00e3o \u00e9 considerado parte do estudo porque \u00e9 de uma pessoa que tem problemas mentais e com a Pol\u00edcia. O que estudamos s\u00e3o os ataques planejados. O nosso objetivo \u00e9 tentar entender qual \u00e9 o sentido da escola para esses meninos que promovem os ataques, visto que \u00e9 um lugar no qual as pessoas estabelecem v\u00ednculos, v\u00e3o todos os dias. Quando se tem um atentado \u00e0 escola, a viol\u00eancia \u00e9 extremamente potencializada, bem diferente do que se ocorresse em um supermercado, onde as pessoas n\u00e3o se veem de novo, n\u00e3o t\u00eam de conviver. Quando assim acontece numa escola, voc\u00ea afeta os grupos daquela escola, a comunidade do entorno, toda uma rede. Os efeitos depois de um ataque s\u00e3o muito s\u00e9rios. O primeiro ataque aconteceu na Bahia em 2002. De l\u00e1 para c\u00e1, tivemos 22 ataques em escolas cometidos por estudantes. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que nos \u00faltimos oito meses tivemos nove desses 22.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\" style=\"font-size:24px\"><strong>\u201cTem algo muito errado, ent\u00e3o isso demonstra claramente que temos de acender alerta m\u00e1ximo. N\u00e3o est\u00e3o em risco apenas as escolas, mas a sociedade.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Identificar o perfil dos que promovem os ataques nos ajuda a entender o porqu\u00ea de eles acontecerem. Geralmente s\u00e3o jovens \u2013 o atirador mais novo com 10 anos de idade e o mais velho com 25 \u2013, brancos e do sexo masculino. T\u00eam gosto pela viol\u00eancia, pelo culto \u00e0s armas. \u00c9 muito comum que ostentem, tirem fotos e as postem com armas. Apresentam ind\u00edcios de transtornos mentais variados, n\u00e3o identificados, n\u00e3o tratados, n\u00e3o acompanhados. Esses meninos apresentam tamb\u00e9m um isolamento social. N\u00e3o s\u00e3o os populares da escola! Eles s\u00e3o aqueles mais reclusos que interagem mais na Internet. Se apresentam com caracter\u00edsticas de discursos de \u00f3dio, de machismo, de racismo e n\u00e3o t\u00eam um prop\u00f3sito, ideias de futuro. Muitos ainda abandonaram a escola. Analisando os ataques, encontramos duas caracter\u00edsticas muito importantes. Todos eles t\u00eam uma experi\u00eancia de sofrimento na escola. Pode ser <em>bullying<\/em>, humilha\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o. Mas n\u00e3o podemos dizer que essas s\u00e3o as \u00fanicas causas, porque n\u00e3o existe uma \u00fanica causa. Existem fatores associados, mas o ambiente escolar tem um significado para eles de sofrimento. O segundo aspecto que a gente encontra na an\u00e1lise, principalmente nos \u00faltimos anos dos ataques, \u00e9 que esses adolescentes s\u00e3o usu\u00e1rios do que a gente chama de subcultura extremista. Eles se articulam com comunidades <em>on-line<\/em> que incentivam viol\u00eancia, misoginia, extremismo. Um dado que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 uns anos, para participar desses f\u00f3runs, era preciso acessar a Internet profunda, conhecida como <em>Deep Web<\/em>, e ter o navegador Thor, algo dif\u00edcil. Atualmente, eles t\u00eam acesso por Instagram, Twitter. No Twitter, voc\u00ea acha in\u00fameros perfis de meninos que claramente dizem que se vence o <em>bullying<\/em> com tiro e declaram \u00f3dio contra as mulheres. No TikTok se ensina massacres. Tamb\u00e9m idolatram esses atiradores que conseguiram matar um grande n\u00famero de pessoas. Ent\u00e3o, uma das caracter\u00edsticas \u00e9 que o atirador n\u00e3o volta s\u00f3 por vingan\u00e7a, mas porque quer fazer o maior n\u00famero de v\u00edtimas poss\u00edvel para ser glorificado nesses espa\u00e7os. Muitas vezes, eles come\u00e7am com <em>games<\/em> e s\u00e3o seduzidos a irem para outra plataforma, para f\u00f3runs, comunidades que t\u00eam neofascistas, neonazistas, que veem a diversidade como uma amea\u00e7a. Nesses grupos, eles se sentem pertencentes, s\u00e3o escutados, sentem que t\u00eam valor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Crian\u00e7as sem apoio fora da escola<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Existe uma explica\u00e7\u00e3o para a maior parte dos ataques ocorrer em escolas p\u00fablicas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013<\/strong> A escola particular est\u00e1 melhor preparada para lidar com certas situa\u00e7\u00f5es. Quando h\u00e1 uma mudan\u00e7a de comportamento, se conversa com a fam\u00edlia, que normalmente tem uma condi\u00e7\u00e3o financeira melhor, um plano de sa\u00fade que permite a procura por um especialista, um apoio psicol\u00f3gico. Na escola p\u00fablica, na maioria das vezes, os servi\u00e7os psicossociais s\u00e3o muito prec\u00e1rios, e as fam\u00edlias \u00e0s vezes n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de levar o filho a um tratamento, porque trabalha o dia inteiro ou n\u00e3o consegue ter gastos com transporte. O aluno da escola particular tem no contraturno aulas de ingl\u00eas, pratica esporte, tem uma atividade art\u00edstica. Esses meninos da escola p\u00fablica, muitas vezes, n\u00e3o t\u00eam nada para fazer que fortale\u00e7a o espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o raro, a escola \u00e9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o social que frequentam. \u00c9 uma realidade muito diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Read also: <a href=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/fanatismo-ou-efeito-manada-por-que-precisamos-refletir-sobre-isso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fanatismo ou efeito manada? Por que precisamos refletir sobre isso?<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Esse movimento de ataques a escolas come\u00e7ou h\u00e1 mais ou menos 20 anos, nos EUA, um pa\u00eds armamentista. Eles n\u00e3o aconteciam no Brasil. O que mudou aqui?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013 <\/strong>OsEstados Unidos t\u00eam uma cultura armamentista, como voc\u00ea colocou bem, e tamb\u00e9m uma cultura da mediatiza\u00e7\u00e3o. L\u00e1 o primeiro ocorreu em 2009, em Columbine, com a morte de 15 pessoas. Ele foi o primeiro transmitido em tempo real pela televis\u00e3o. O autor \u00e9 considerado um verdadeiro her\u00f3i. Os ataques que ocorreram no Brasil em Realengo, por exemplo, ou Suzano, s\u00e3o muito parecidos. Os autores usaram roupas e m\u00e1scaras muito semelhantes. N\u00f3s tivemos nos \u00faltimos anos um aumento muito grande de armas circulando no Brasil, principalmente nos \u00faltimos quatro anos. Quase 480% a mais. Essa disponibilidade de armas favorece a ideia do poder da arma, da viol\u00eancia, e, ao mesmo tempo, a letalidade desses crimes. Um outro fator que merece destaque tamb\u00e9m e que tem a ver com o que aconteceu nos Estados Unidos \u00e9 que n\u00f3s vivemos nos \u00faltimos anos um discurso social encorajando direta ou indiretamente esses atos agressivos de viol\u00eancia extrema. Ent\u00e3o, \u00e9 como se tivesse a sociedade dado autoriza\u00e7\u00e3o para agir. At\u00e9 2017, n\u00f3s t\u00ednhamos uma m\u00e9dia de 11 tiroteios por ano nos Estados Unidos. A partir de 2018, quando come\u00e7ou o governo Trump, se acentuaram, e em 2022, chegaram a 46 por ano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/professor_irritado_bate_na_mesa.jpg\" alt=\"M\u00e3o de um educador bravo\" class=\"wp-image-4737\" width=\"706\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/professor_irritado_bate_na_mesa.jpg 451w, https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/professor_irritado_bate_na_mesa-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 706px) 100vw, 706px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Banco de Imagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\" style=\"font-size:24px\"><strong>\u201cQuando voc\u00ea tem um ambiente social que estimula a viol\u00eancia, o discurso de \u00f3dio, a polariza\u00e7\u00e3o entre as pessoas, voc\u00ea v\u00ea isso sendo manifestado tamb\u00e9m nos ataques. Ent\u00e3o, por isso que a gente diz tanto l\u00e1 como aqui que vai acontecer de novo. Os EUA s\u00e3o os que t\u00eam a maior seguran\u00e7a em escolas que existe. Mas os ataques continuam.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a palavra-chave, correto?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013<\/strong> Pode existir seguran\u00e7a, mas se existe um discurso social encorajando a viol\u00eancia&#8230; Voc\u00eas se lembram daquele epis\u00f3dio que aconteceu no come\u00e7o do ano logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o presidencial? Grupos racistas que falavam dos pobres, dos nordestinos. N\u00e3o tem de ter quest\u00f5es partid\u00e1rias na escola, mas n\u00e3o se discutiu o que estava acontecendo, as mensagens que estavam vindo, a polariza\u00e7\u00e3o, as agress\u00f5es, o porqu\u00ea de as fam\u00edlias estarem brigando. Esses temas, que faziam parte do cotidiano dos jovens, foram exclu\u00eddos da escola. E n\u00e3o poderiam ter sido. Tivemos tamb\u00e9m uma pandemia, adoecimento mental. Esses meninos voltaram para a escola depois de ficarem muito tempo conectados. Houve aumento nos casos de viol\u00eancia na escola. Um caldeir\u00e3o, com v\u00e1rios fatores interferindo. Ser\u00e1 que seguran\u00e7a funciona? Se sim, os Estados Unidos n\u00e3o teriam ataques. Somente neste ano, tivemos mais de 12 tiroteios em escolas americanas. Por que a seguran\u00e7a n\u00e3o funciona? Porque eles planejam o ataque com anteced\u00eancia. Pensam como entrar. O ataque de Aracruz, por exemplo, foi planejado por dois anos. Seguran\u00e7a n\u00e3o muda a concep\u00e7\u00e3o. Seguran\u00e7a n\u00e3o muda sentimento. A escola precisa justamente trabalhar a mudan\u00e7a dessas concep\u00e7\u00f5es. Claro que algumas medidas podem ser tomadas. Uma escola de Vit\u00f3ria, por exemplo, colocou um bot\u00e3o do p\u00e2nico. Se houver algum ataque, alguma viol\u00eancia, ele ser\u00e1 acionado, viaturas policiais pr\u00f3ximas ir\u00e3o se dirigir para l\u00e1, e tudo ser\u00e1 gravado. S\u00e3o medidas da Pol\u00edcia na escola.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Redes sociais com responsabilidade <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Existe uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o na Internet que faz com que os alunos vigiem o professor como algu\u00e9m que est\u00e1 prestes a cometer um delito. O professor se sente acuado em falar sobre determinados temas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013<\/strong> \u00c9 uma coisa muito s\u00e9ria o que aconteceu e ainda est\u00e1 acontecendo. A fam\u00edlia tem valores pr\u00f3prios, \u00e9 respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o de \u00e2mbito privado e vai educar de acordo com o valor da comunidade que ela convive. Pode ser uma fam\u00edlia generosa, mas pode ser uma que subjuga a mulher, que considera que a homossexualidade n\u00e3o \u00e9 algo normal. Quando esse menino est\u00e1 na escola, os valores da sua comunidade familiar t\u00eam de ser transformados em valores coletivos e socialmente desej\u00e1veis. Essa \u00e9 uma das fun\u00e7\u00f5es da escola. Ela que vai preparar o indiv\u00edduo para uma sociedade plural diversa, democr\u00e1tica. N\u00e3o se faz isso sem uma autonomia intelectual, sem um espa\u00e7o de discuss\u00e3o. Tem\u00e1ticas que envolvam a conviv\u00eancia <em>on-line <\/em>s\u00e3o superimportante. Os alunos t\u00eam de aprender formas de manipula\u00e7\u00e3o das redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a responsabilidade das plataformas digitais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013 <\/strong>Defendemos uma pol\u00edtica de responsabiliza\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o das plataformas que abrigam conte\u00fado que incita viol\u00eancia. Tem de haver prazo para retirada desses conte\u00fados. A gente denuncia, por exemplo, meninos que dizem que v\u00e3o fazer determinada coisa. N\u00e3o acontece nada. Defendemos que haja um canal \u00fanico de recebimento de den\u00fancias, que haja investiga\u00e7\u00e3o,<br>porque esses meninos anunciam previamente o que v\u00e3o fazer. \u00c9 preciso levar a s\u00e9rio esses an\u00fancios, denunciar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 E as m\u00eddias, como devem agir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013 <\/strong>Uma das coisas que a gente diz \u00e9 que n\u00e3o se deve divulgar nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o autor de um ataque ou sobre o processo. Deve-se focar na v\u00edtima, porque eles querem justamente serem famosos. Se \u00e9 divulgado quem fez e como fez, inspiram-se novos ataques.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 O que mais \u00e9 importante?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013 <\/strong>Defendemos a amplia\u00e7\u00e3o do sistema de prote\u00e7\u00e3o social, o fortalecimento do servi\u00e7o de atendimento psicol\u00f3gico\/psiqui\u00e1trico das redes. A gente j\u00e1 vem de um adoecimento mental da pandemia. Tamb\u00e9m defendemos pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea da conviv\u00eancia, que ajudem a escola a transformar o ambiente. Isso tem v\u00e1rias estrat\u00e9gias que podem ser utilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Qual \u00e9 o papel do gestor, da escola, do diretor, dos orientadores, dos coordenadores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013<\/strong> \u00c9 preciso levar adiante qualquer sinal que o aluno apresente de viol\u00eancia. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante. Nos estudos que a gente tem acompanhado, os gestores, muitas vezes, est\u00e3o assoberbados com uma s\u00e9rie de coisas burocr\u00e1ticas, avalia\u00e7\u00f5es externas. Grande parte se sente estressada por causa de problemas de conviv\u00eancia, de disciplina, dentro da escola. Ent\u00e3o, acabam mais apagando inc\u00eandio do que conseguindo criar dentro da escola uma pol\u00edtica de fomento da qualidade da conviv\u00eancia. Temos exemplos de pa\u00edses como Chile, Col\u00f4mbia e Espanha que t\u00eam adotado pol\u00edticas de conviv\u00eancia democr\u00e1tica e cidad\u00e3. Esse tipo de pol\u00edtica vai preparando a escola primeiro para diferenciar os problemas de conviv\u00eancia. Tem problemas que s\u00f3 perturbam, que atrapalham como indisciplina, mas tem problemas que s\u00e3o viol\u00eancia, <em>bullying<\/em>, agressividade. Muitas vezes, a escola lida com problemas de natureza distinta da mesma maneira. \u00c9 preciso atuar em uma dimens\u00e3o preventiva do racismo, da viol\u00eancia, com estrat\u00e9gia, assertividade, autorregula\u00e7\u00e3o emocional. Atualmente, a gente sabe como desenvolver uma cultura de di\u00e1logo na escola. \u00c9 importante a implanta\u00e7\u00e3o de rodas de di\u00e1logo ou assembleias quinzenais em cada turma, nas quais discute-se sobre a conviv\u00eancia. \u00c9 um processo no qual ao se aprender, se perceber, se identificam problemas, colocam-se argumentos, ouve-se a perspectiva do outro, busca-se assim uma solu\u00e7\u00e3o coletiva e, ao mesmo tempo, se preparam alguns profissionais da escola para implantar espa\u00e7os de media\u00e7\u00e3o de conflito. Por exemplo: eu briguei com voc\u00ea na sa\u00edda da escola e fiz um <em>post <\/em>na Internet. Eu expus algu\u00e9m! O espa\u00e7o de media\u00e7\u00e3o \u00e9 de \u00e2mbito mais privado. L\u00e1 eu tenho que expressar o que me aconteceu, como eu me senti e o outro vai colocar a perspectiva dele. Aprende-se, na a\u00e7\u00e3o, a substituir viol\u00eancia pela palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\" style=\"font-size:24px\"><strong>\u201cExiste uma s\u00e9rie de recursos que mudam a cultura da escola. \u00c9 preciso pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento para isso, que incluem a forma\u00e7\u00e3o de professores, para que eles consigam melhorar a qualidade das rela\u00e7\u00f5es, criando um ambiente mais humanizado. Quando voc\u00ea faz isso todo mundo ganha: o gestor, os profissionais, os estudantes. Muda-se a qualidade do clima da escola. Todos se sentem mais pertencentes \u00e0quela escola e tornam-se mais participativos.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 urgente que a sociedade se una para exigir uma s\u00e9rie de coisas, inclusive dizer que n\u00e3o d\u00e1 mais para a gente ignorar o espa\u00e7o escolar, que tem de ser essencial em termos de acolhimento, de forma\u00e7\u00e3o, de escuta, porque a nossa sociedade est\u00e1 em risco. A gente s\u00f3 perdeu at\u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a import\u00e2ncia do desenvolvimento do valor moral para a constru\u00e7\u00e3o do ser humano de forma integral?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Telma \u2013<\/strong> Minha \u00e1rea de pesquisa \u00e9 o desenvolvimento moral, os valores, o desenvolvimento de autonomia. Existe uma diferen\u00e7a entre clima escolar e conviv\u00eancia. O clima \u00e9 a busca pelo bem-estar das pessoas que est\u00e3o l\u00e1, de confian\u00e7a, rela\u00e7\u00f5es de apoio. Quando a gente fala em conviv\u00eancia, falamos de conviv\u00eancia \u00e9tica e democr\u00e1tica. Por qu\u00ea? Porque \u00e9 na conviv\u00eancia que eu aprendo valores como respeito, justi\u00e7a, que eu desenvolvo empatia, o reconhecimento do direito do outro e o meu direito. Isso tem de estar presente na escola. S\u00f3 o conte\u00fado curricular n\u00e3o \u00e9 capaz de transformar ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\" style=\"font-size:24px\"> <strong>\u201cA viv\u00eancia e o pensar sobre quest\u00f5es s\u00e3o capazes de transformar. Tem que haver uma coer\u00eancia entre aquilo que se pretende ensinar e aquilo que se vive na a\u00e7\u00e3o.\u201d<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educator Telma Vinha spoke to Folha Esp\u00edrita about a recent study on attacks of extreme violence in schools in Brazil.<\/p>","protected":false},"author":8,"featured_media":4735,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"edicoes":[583],"class_list":["post-4726","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista","edicoes-589-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4726"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4765,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4726\/revisions\/4765"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4726"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=4726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}