{"id":8125,"date":"2025-05-03T11:02:59","date_gmt":"2025-05-03T14:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=8125"},"modified":"2026-01-23T20:17:02","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:02","slug":"quando-o-palco-virou-altar-a-licao-de-fe-e-impermanencia-no-show-de-gilberto-gil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/en\/2025\/05\/03\/quando-o-palco-virou-altar-a-licao-de-fe-e-impermanencia-no-show-de-gilberto-gil\/","title":{"rendered":"Quando o palco virou altar \u2013 a li\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e imperman\u00eancia no show de Gilberto Gil"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 27\/04, em um momento \u00fanico do show <em>Tempo Rei<\/em> em S\u00e3o Paulo, ap\u00f3s cantar <em>Se eu quiser falar com Deus<\/em>, Gilberto Gil parecia travar um di\u00e1logo direto com o Criador, como se o palco virasse altar, e a m\u00fasica, prece. Ent\u00e3o, pelos alto-falantes, ecoou o chamado que arrancou suspiros: <em>\u201cVem pra c\u00e1, Pretinha!\u201d<\/em> Apoiada pela irm\u00e3 Nara e pela cunhada, com passos lentos, mas seguros, Preta Gil subiu ao palco como um raio de luz fr\u00e1gil e indom\u00e1vel, comovendo o est\u00e1dio inteiro ao sentar-se ao lado do pai. Juntos, entoaram <em>Dr\u00e3o<\/em> \u2013 can\u00e7\u00e3o composta por Gil para Sandra Gadelha, m\u00e3e de Preta, que tamb\u00e9m assistia, emocionada, na plateia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"536\" height=\"699\" src=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/gilberto_gil.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8155\" srcset=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/gilberto_gil.jpg 536w, https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/gilberto_gil-230x300.jpg 230w\" sizes=\"(max-width: 536px) 100vw, 536px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Mais de 40 mil pessoas, surpreendidas pela cena, renderam-se \u00e0s l\u00e1grimas. Ali, diante daquele palco, testemunhavam uma aula viva sobre amor e imperman\u00eancia. Quem tem filhos, certamente, viu-se projetado no cora\u00e7\u00e3o de Gil \u2013 homem de 82 anos cujas l\u00e1grimas escorriam como um rio a levar dor e gratid\u00e3o misturadas. Nenhuma an\u00e1lise seria capaz de decifrar o turbilh\u00e3o em sua alma naquele instante.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem n\u00e3o \u00e9 pai ou m\u00e3e, a cena foi um soco no peito: uma filha lutando contra um c\u00e2ncer h\u00e1 dois anos, abra\u00e7ando o pai como quem segura a vida com as duas m\u00e3os. Preta revelou depois que aquele momento foi <em>\u201cuma inje\u00e7\u00e3o de vida\u201d<\/em> e nos deu a todos uma li\u00e7\u00e3o brutal sobre o agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema do show, <em>Tempo Rei<\/em>, reinou de fato: fez 40 mil cora\u00e7\u00f5es pararem para respirar fundo e perguntar: <em>O que realmente importa?<\/em> Como escreveu Chico Xavier em <em>Li\u00e7\u00f5es de sabedoria<\/em>: \u201cOs Esp\u00edritos ainda n\u00e3o encontraram uma palavra para a dor de pais que perdem um filho\u201d. Nem as composi\u00e7\u00f5es mais geniais de Gil traduziriam essa ang\u00fastia. Naquele palco, por\u00e9m, ele viveu a pr\u00e9-saudade \u2013 o medo e a f\u00e9 entrela\u00e7ados, enquanto abra\u00e7ava a filha de 50 anos que luta para continuar vivendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Chico Buarque, em v\u00eddeo projetado naquele mesmo palco, disse a Gilberto Gil \u201c<em>Sempre te admirei pela serenidade<\/em>\u201d, a plateia mal podia imaginar o peso daquelas palavras. Serenidade&#8230; Como definir essa virtude diante da \u00fanica dor que desafia qualquer l\u00f3gica humana: a de sepultar um filho? Gil conhecia bem esse abismo. Em 1990, Pedro, com ent\u00e3o 19 anos, partira num acidente de carro, deixando-lhe n\u00e3o apenas saudades, mas uma pergunta que deve ecoar ainda por d\u00e9cadas: \u201cPor qu\u00ea?\u201d Agora, 35 anos depois, ali estava ele, segurando a m\u00e3o de Preta, enquanto ela luta para se manter em p\u00e9. A mesma serenidade admirada por Chico era, agora, posta \u00e0 prova novamente, n\u00e3o como teoria, mas como testemunho.<\/p>\n\n\n\n<p>No cap\u00edtulo \u201cBem-aventurados os aflitos\u201d (<em>The Gospel according to Spiritism<\/em>), o Esp\u00edrito Sanson consola: a morte prematura \u00e9 uma ferida que nunca cicatriza, mas e se for um resgate? E se Deus, ao levar Preta um dia, estiver poupando-a de dores maiores? A morte nunca \u00e9 acidental. Ela \u00e9 assinatura divina em letras que s\u00f3 leremos depois. Quantos \u201cfuturos brilhantes\u201d n\u00e3o viraram hist\u00f3rias de v\u00edcio ou solid\u00e3o? Talvez a partida seja um <em>\u201cVem para casa, filha. Aqui, nada te machucar\u00e1\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nossa dor \u00e9 leg\u00edtima, mas n\u00e3o \u00fanica. Eles, do outro lado, veem o que n\u00f3s n\u00e3o alcan\u00e7amos: o perfume inexplic\u00e1vel, o toque em sonhos, a f\u00edsica espiritual do amor que n\u00e3o morre. Os que ficam \u2013 as pessoas idosas \u201cesquecidas\u201d, os doentes persistentes \u2013 s\u00e3o escultores de almas. Deus os mant\u00e9m aqui para talhar resili\u00eancia no m\u00e1rmore de nossa fragilidade. O desafio? Trocar \u201cPor qu\u00ea?\u201d por \u201cO que essa dor me ensina?\u201d A morte n\u00e3o \u00e9 roubo. \u00c9 promessa de reencontro, um fio de amor esticado entre dimens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuem poder\u00e1 fazer aquele amor morrer\/Se o amor \u00e9 como um gr\u00e3o\/Morre, nasce, trigo\/Vive, morre, p\u00e3o\u201d. Quando Gil e Preta entoaram esses versos de <em>Dr\u00e3o<\/em>, n\u00e3o estavam apenas cantando, estavam demonstrando a lei da reencarna\u00e7\u00e3o em forma de poesia. A can\u00e7\u00e3o, com seu ciclo de transforma\u00e7\u00e3o (gr\u00e3o \u2192 trigo \u2192 p\u00e3o), ecoava a mesma verdade que Kardec ensinou: \u201cNascer, renascer e progredir tal \u00e9 lei\u201d. E no Allianz Parque, aquela melodia virou espelho para todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o gr\u00e3o precisa morrer para se tornar p\u00e3o, nossas dores s\u00e3o sementes de renascimento. Gil e Preta, ao dividirem o palco diante da doen\u00e7a, provaram isso na pr\u00e1tica. Transformaram o medo em melodia, mas n\u00e3o por nega\u00e7\u00e3o, e sim por f\u00e9, tal qual o trigo que aceita seu fim no moinho para alimentar o futuro. E a plateia, ao chorar e aplaudir, compreendeu: o amor nunca morre; apenas se transfigura, como o gr\u00e3o da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o palco n\u00e3o foi s\u00f3 um local de m\u00fasica. Tornou-se altar \u2013 altar onde se celebrou a vida exatamente porque ela \u00e9 ef\u00eamera (como o gr\u00e3o), e o amor exatamente porque \u00e9 eterno (como o p\u00e3o que sacia gera\u00e7\u00f5es). Cada <em>Dr\u00e3o<\/em> cantado era um lembrete: a morte \u00e9 passagem, e n\u00e3o fim; o sofrimento \u00e9 forja, e n\u00e3o destino. E quando 40 mil vozes calaram para ouvir aquele pai e aquela filha, todos sentiram \u2013 nas fibras da alma \u2013 a lei maior: \u201cAmar sempre, renascer sempre\u201d. Como o gr\u00e3o. Como o Esp\u00edrito. Como a vida que insiste.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 27\/04, em um momento \u00fanico do show Tempo Rei em S\u00e3o Paulo, ap\u00f3s cantar Se eu quiser falar com Deus, Gilberto Gil parecia travar um di\u00e1logo direto com o Criador, como se o palco virasse altar, e a m\u00fasica, prece. 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