{"id":2310,"date":"2021-10-01T02:10:13","date_gmt":"2021-10-01T05:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=2310"},"modified":"2026-01-23T20:17:18","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:18","slug":"allan-kardec-educador-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/2021\/10\/01\/allan-kardec-educador-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Allan Kardec, educador de la humanidad"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-os-manuscritos-in-ditos-e-a-verdadeira-hist-ria-do-espiritismo\">Os manuscritos in\u00e9ditos e a verdadeira hist\u00f3ria do Espiritismo<\/h2>\n\n\n\n<p>O professor Rivail, que ficaria conhecido pelo pseud\u00f4nimo de Allan Kardec, elaborou a ci\u00eancia esp\u00edrita escrevendo milhares de p\u00e1ginas, publicadas em artigos, livros e revistas mensais, por mais de uma d\u00e9cada. No entanto, caso voc\u00ea se dedique a esmiu\u00e7ar cada par\u00e1grafo de suas obras completas, quase nada vai encontrar sobre ele mesmo, sua vida particular, fam\u00edlia, ou qualquer particularidade de sua hist\u00f3ria pessoal. Isso n\u00e3o quer dizer que Rivail n\u00e3o considerasse importante esse registro, mas sua convic\u00e7\u00e3o era a de que essa tarefa n\u00e3o deveria ser cumprida por ele, e sim pelos comentadores do futuro. Al\u00e9m disso, ela n\u00e3o poderia ser realizada no calor dos fatos, pois acreditava ser mais relevante quando o ciclo de sua realiza\u00e7\u00e3o se desse por completo. Veja s\u00f3 o que ele escreveu sobre isso na <em>Revista Esp\u00edrita <\/em>de outubro de 1862: \u201cQue o Espiritismo, sendo incontestavelmente chamado a desempenhar um grande papel na hist\u00f3ria, importa que esse papel n\u00e3o seja desnaturado, e que se oponha uma hist\u00f3ria aut\u00eantica \u00e0s hist\u00f3rias ap\u00f3crifas que o interesse pessoal poder\u00e1 fazer. Ali\u00e1s, o Espiritismo est\u00e1 em seu in\u00edcio, e muitas outras coisas se passar\u00e3o daqui at\u00e9 l\u00e1; e depois, \u00e9 preciso esperar que cada um nele tenha tomado seu lugar, bom ou mau.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira hist\u00f3ria do Espiritismo n\u00e3o poderia ser escrita por meio de boatos, ideias pessoais, relatos parciais ou lendas. O trabalho s\u00e9rio do pesquisador leg\u00edtimo est\u00e1 em debru\u00e7ar-se sobre fontes prim\u00e1rias, relatos de pr\u00f3prio punho e documentos oficiais, e o professor Rivail sabia disso muito bem. Desde os tempos em que era diretor de escola, guardava cuidadosamente suas cartas, documentos, impressos, mem\u00f3rias, relatos, artigos e preces nos arquivos de seu escrit\u00f3rio particular. Tinha, em especial, uma estante de nogueira, com portas de cristal transl\u00facido e com puxadores de bronze, na qual foi guardando tudo o que lhe era mais valioso e especial. Esse arm\u00e1rio, e o h\u00e1bito de selecionar documentos preciosos, o acompanharam quando fundou a Sociedade Parisiense. Curiosamente, estava organizando esses arquivos, para a mudan\u00e7a de endere\u00e7o em 1869, ao cair de forma fulminante quando seu cora\u00e7\u00e3o parou. Nesse escrit\u00f3rio, al\u00e9m da estante de nogueira, os arquivos minuciosamente organizados conservavam as cartas recebidas e c\u00f3pias das enviadas, aos milhares, na correspond\u00eancia que mantinha com centenas de grupos de estudos esp\u00edritas na Fran\u00e7a e no mundo: \u201cEssa concentra\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de for\u00e7as dispersas deu lugar a uma correspond\u00eancia imensa, monumento \u00fanico no mundo, quadro vivo da verdadeira hist\u00f3ria do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos m\u00faltiplos que a Doutrina fez nascer, os resultados morais, as abnega\u00e7\u00f5es e os desfalecimentos. S\u00e3o arquivos preciosos para a posteridade, que poder\u00e1 julgar os homens e as coisas atrav\u00e9s de documentos aut\u00eanticos. Em presen\u00e7a desses testemunhos irrefut\u00e1veis, a que se reduzir\u00e3o, com o tempo, todas as falsas alega\u00e7\u00f5es, as difama\u00e7\u00f5es da inveja e do ci\u00fame?\u201d (Nota do autor em <em>A G\u00eanese<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, nestas primeiras d\u00e9cadas do terceiro mil\u00eanio, vivenciamos uma nova aurora para a realiza\u00e7\u00e3o desse sonho do professor Rivail. \u00c9 importante considerar que esses arquivos com milhares de cartas catalogadas foram queimados ap\u00f3s a morte da madame Rivail, Am\u00e9lie, pelos respons\u00e1veis da Sociedade An\u00f4nima, empresa que detinha os direitos sobre o legado de Allan Kardec. A estante de nogueira, por sua vez, foi roubada pelos nazistas da Maison des Spirites, do pr\u00e9dio n. 8 da Rua Copernic, quando ocuparam a Fran\u00e7a desde 1940. No entanto, o conte\u00fado selecionado por Rivail desse m\u00f3vel foi incrivelmente preservado, nesse que mais parece um roteiro de filme. Ficou na Livraria Leymarie, longe do conhecimento dos invasores. Paul Leymarie levou a maior parte com ele quando estava doente, no final da vida, e com a livraria falida e interditada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao saber disso, o pesquisador brasileiro Canuto Abreu, que dedicou sua vida para restabelecer a verdadeira hist\u00f3ria do Espiritismo, foi ao encontro de Paul, que morava de favor na casa de um amigo, na periferia de Paris. O franc\u00eas j\u00e1 estava desanimado com o paradeiro do valioso bornal de couro com os documentos quando se deparou com o esp\u00edrita brasileiro e teve a confian\u00e7a de lhe entregar o volume.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes e outros lotes que comp\u00f5em o acervo de Kardec j\u00e1 come\u00e7aram a vir a p\u00fablico. Estamos vivenciando um divisor de \u00e1guas quanto \u00e0 hist\u00f3ria do Espiritismo. O s\u00e9culo XX foi marcado por relatos imaginados, sem refer\u00eancia de fontes e at\u00e9 mesmo fantasiosos sobre Rivail e o Espiritismo. Agora estamos diante de fontes prim\u00e1rias, cartas escritas por ele mesmo, desde quando era diretor de escola, at\u00e9 documentos p\u00f3stumos. \u00c9 a maior riqueza cultural j\u00e1 vista sobre o advento da Doutrina dos Esp\u00edritos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-rivail-o-educador\">Rivail, o educador<\/h2>\n\n\n\n<p>Dentre os conjuntos de documentos recuperados por Canuto Abreu, que est\u00e3o sendo transcritos e traduzidos pela equipe do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o e Obras Raras (CDOR) da Funda\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Andr\u00e9 Luiz (FEAL), e demais acervos complementares, origin\u00e1rios do arm\u00e1rio de nogueira, certa quantidade trata-se de cartas pessoais, trocadas por familiares do professor Rivail. Por elas, sabemos que Rivail e Am\u00e9lie buscavam estar sempre juntos. Ela o chamava regularmente de querido amigo. A dist\u00e2ncia era diminu\u00edda por uma constante correspond\u00eancia, nas quais relatavam os seus afazeres e pensamentos um ao outro, mas ela dizia que as not\u00edcias nunca substituiriam a alegria de sua companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma poeirenta viagem a Lyon, Rivail escreveu para Am\u00e9lie do hotel L\u2019Ecu de France, quando ela estava na propriedade rural dos pais em Ch\u00e2teau-du-Loir, Sarthe. Ele descreve o que se passou no vag\u00e3o do trem: \u201cNa maior parte do caminho, tive o prazer de ter a companhia de uma crian\u00e7a de um ano no carro que, por seus gritos e cheiros, nos ofereceu uma pequena repeti\u00e7\u00e3o da tarefa e me fez desfrutar antecipadamente dos encantos da paternidade\u201d (Manuscrito CDOR Kempf n. 1834_08_20). E termina a carta expressando sua afei\u00e7\u00e3o: \u201cbeijando voc\u00ea com todo o carinho do marido mais amado, que ama sua amada e querida esposa tanto quanto um marido terno e amoroso pode fazer, que assim seja HLDRival. Transmita meu afeto e respeito aos seus pais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos se foi uma filha natural, adotada ou criada por eles, mas em 23 de agosto de 1841, quando viajou novamente para Lyon, agora em raz\u00e3o do funeral de sua tia Reine Matthevot, depois de tratar de diversos assuntos, pediu a Am\u00e9lie que abra\u00e7asse a sua pequena Louise, agradecendo \u00e0 cartinha que ela tinha enviado para o pai (Manuscrito CDOR Kempf n. 1841_08_23).<\/p>\n\n\n\n<p>Rivail e Am\u00e9lie foram pais extremamente dedicados. Combinavam juntos a educa\u00e7\u00e3o da menina, sempre despertando os valores dela, incentivando suas primeiras conquistas, admirando seu progresso. Numa carta de 15 de agosto de 1842, Rivail diz a Am\u00e9lie estar feliz por ela ter prolongado sua estadia em Ch\u00e2teau-du-Loir, pela satisfa\u00e7\u00e3o de estar com seus pais e poder lhes prestar cuidados na idade deles. Quanto a Louise, comentou: \u201cCompreendi com prazer que Louise trabalha bem na leitura e escrita, progredindo bastante, fiquei muito satisfeito com sua pequena carta e espero que ela possa ler sozinha a que lhe enviei!\u201d (Manuscrito CDOR Kempf n. 1842_08_15). Em seguida, trata com Am\u00e9lie do ensino de c\u00e1lculo. Explica longamente as instru\u00e7\u00f5es para o aprendizado em aritm\u00e9tica de Louise, afinal, ele chegou a escrever livros did\u00e1ticos sobre o tema amplamente aplicado na Fran\u00e7a para o ensino prim\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aus\u00eancia da m\u00e1quina de c\u00e1lculos, a menina brincava com fichas \u2013 disse Rivail \u2013, umas valendo 100, outras 10 e 1. Com elas, iria compor os n\u00fameros, menores inicialmente e progredindo depois. O n\u00famero 241, escreveria com duas fichas de 100, quatro de 10 e uma de 1, formando uma fileira. Unindo os s\u00edmbolos com seus significados naturalmente. Depois disso, ela aprenderia que, ap\u00f3s montar o n\u00famero 19 com uma ficha de valor 10 e nove de valor 1, ao acrescentar uma ficha de valor 1, ser\u00e3o dez delas, e ent\u00e3o poder\u00e1 trocar por uma de valor 10, formando 20.<\/p>\n\n\n\n<p>Que vemos aqui? O professor Rivail dedicou sua vida \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos franceses, trazendo de Yverdon o m\u00e9todo transformador de Pestalozzi, que foi a base de sua educa\u00e7\u00e3o na juventude. Criou um estabelecimento de refer\u00eancia em Paris, o Instituto Rivail de Educa\u00e7\u00e3o, num grande pr\u00e9dio. O sal\u00e3o principal comportava mais de 500 pessoas. Enquanto Rivail era o diretor, Am\u00e9lie gerenciava as atividades do instituto, al\u00e9m disso, ambos atuavam como professores, sendo que ela se dedicava ao ensino das artes. Agora, por\u00e9m, os educadores dos parisienses tornaram-se educadores da pequena Louise. N\u00e3o se trata de um desafio menor, mas ainda mais grandioso. Cuidar do Instituto requer uma responsabilidade profissional para atender aos alunos, mas aquela menina merecia o esfor\u00e7o deles enquanto pai e m\u00e3e. Aquela alma estava confiada aos seus esfor\u00e7os e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal Rivail estava capacitado no que representava o ponto culminante do humanismo: a proposta liberal francesa, baseada na psicologia espiritualista, de despertar os valores da alma, pelo esfor\u00e7o pessoal. A faculdade da raz\u00e3o permite o uso da intelig\u00eancia para compreender por si mesmo, conquistando a liberdade de pensar. O dom\u00ednio da faculdade da vontade \u00e9 a base da moral, quando a liberdade de escolha torna o ser verdadeiramente respons\u00e1vel pelos seus atos. E a imagina\u00e7\u00e3o, no despertar da criatividade, cria condi\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o, a descoberta, valorizando profundamente o ser que aprende a dominar a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um baque para Rivail receber de Am\u00e9lie a not\u00edcia de que a pequena Louise, preparando para viajar de carruagem da casa de seus pais no interior para a capital, sentiu-se mal, desfaleceu e, por fim, morreu nos bra\u00e7os da m\u00e3e. Rivail, ainda sem compreender a reencarna\u00e7\u00e3o que viria a aprender com os Esp\u00edritos superiores, n\u00e3o conseguia encontrar respostas para esse terr\u00edvel enigma. Qual o sentido para a morte prematura de uma crian\u00e7a, quando ainda desperta e se prepara para a vida?<\/p>\n\n\n\n<p>Na contram\u00e3o desse caminho libertador, os jesu\u00edtas, seguindo o caminho proposto por In\u00e1cio de Loyola desde 1534, lutavam contra o humanismo e o protestantismo, por meio de uma domestica\u00e7\u00e3o, na tentativa de retomar os tempos do poder absoluto de papas e reis. Essa proposta retr\u00f3grada fazia uso da escolariza\u00e7\u00e3o para dominar, submeter, inibir. Os instrumentos eram o decorar, a competi\u00e7\u00e3o, o castigo e a recompensa. O uso da viol\u00eancia era justificado pela falsa ideia de que o corpo deveria ser subjugado, por ser a fonte do pecado. Por sua vez, Pestalozzi e Rivail representavam o despertar da liberdade. O per\u00edodo das luzes estava rendendo frutos fundamentais para o surgimento de um novo mundo. Desde os s\u00e9culos XIV a XVI, surgia uma rea\u00e7\u00e3o contra todo tipo de autoritarismo, em favor do pensamento racional, a confian\u00e7a do indiv\u00edduo no poder da raz\u00e3o. Esse per\u00edodo abriu caminho para a evolu\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o, da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o pensamento de que a realidade \u00e9 regida por leis naturais, causando uma crescente eros\u00e3o do mundo antigo, e o descr\u00e9dito da estrutura autorit\u00e1ria da Igreja e da nobreza. Tudo vai caminhar para as revolu\u00e7\u00f5es, e o surgimento da necessidade de se repensar os fundamentos da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Allan Kardec, depois do desenvolvimento grandioso da ci\u00eancia, por meio da intelig\u00eancia, o novo objetivo seria a compreens\u00e3o da alma, por uma psicologia experimental que compreendia o ser humano como alma encarnada, mas tamb\u00e9m do Esp\u00edrito como alma desencarnada, ambos compondo a verdadeira humanidade, coexistindo em dois mundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Rivail tinha visto na educa\u00e7\u00e3o proposta por Pestalozzi o meio de realizar essa tarefa. O afeto era central em seu m\u00e9todo, dedicado a despertar na crian\u00e7a a autoeduca\u00e7\u00e3o, baseada em suas capacidades inatas. A sociedade deveria considerar o amor materno como fen\u00f4meno de refer\u00eancia para que a coopera\u00e7\u00e3o, o apoio m\u00fatuo, substitua a competi\u00e7\u00e3o presente na educa\u00e7\u00e3o do mundo velho. O despertar da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um movimento de dentro para fora, baseado na autonomia intelecto-moral-criativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-surge-um-novo-caminho\">Surge um novo caminho<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o materialismo tomou o pensamento franc\u00eas, como num torpor. Em rea\u00e7\u00e3o ao fanatismo e \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o impostos por nobres e pelo clero, o anseio pela liberdade provocou o extremo oposto da cren\u00e7a na descren\u00e7a. At\u00e9 mesmo padres pregavam que em vida \u00e9ramos escravos do corpo, e a realidade da alma estava distante deste mundo. Mas essa fase n\u00e3o durou muito. Os franceses sempre foram conscientes da realidade da alma, desde a ancestralidade nas g\u00e1lias. Kardec explica num artigo da <em>Revista Esp\u00edrita<\/em> de 1863, em outubro, o que chamou de \u201cRea\u00e7\u00e3o das ideias espiritualistas\u201d. Ele afirma que no per\u00edodo em torno da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa a sociedade estava tomada pelas ideias materialistas, negava-se tudo, at\u00e9 a exist\u00eancia de Deus, por\u00e9m foi reconhecido que faltava \u00e0s institui\u00e7\u00f5es sociais um apoio s\u00f3lido. Diante de ampla necessidade de se compreender racionalmente o que \u00e9 a alma, sua origem e seu destino, teve in\u00edcio \u201cuma rea\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel \u00e0s ideias espiritualistas\u201d, explica Kardec. O Espiritualismo Racional enquanto filosofia oficial da Fran\u00e7a ap\u00f3s 1830 visava \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o da humanidade pelo desenvolvimento das faculdades da alma (raz\u00e3o, vontade, imagina\u00e7\u00e3o) e pela moral da liberdade. Conclui o professor: \u201cFoi nessas circunst\u00e2ncias, eminentemente favor\u00e1veis, que o Espiritismo chegou. Anteriormente, teria se deparado com o materialismo que tudo permeava; anteriormente, seria sufocado por um fanatismo cego. Apresenta-se no momento [&#8230;] em que a rea\u00e7\u00e3o espiritualista, provocada pelos pr\u00f3prios excessos do materialismo, se apodera de todas as mentes, quando estamos em busca das grandes solu\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao futuro da humanidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XIX, o movimento liberal promovido pelo Espiritualismo Racional propunha uma regenera\u00e7\u00e3o da humanidade, pelo desenvolvimento aut\u00f4nomo das faculdades da alma. A Doutrina Esp\u00edrita, demonstrando as leis que regem o mundo espiritual, segundo Kardec, surgiu no momento ideal, apontando caminhos para a regenera\u00e7\u00e3o, de tal forma que o \u201cEspiritismo n\u00e3o criou a renova\u00e7\u00e3o social, pois a maturidade da humanidade faz dessa renova\u00e7\u00e3o uma necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tend\u00eancias progressivas, pela eleva\u00e7\u00e3o de seus prop\u00f3sitos, pela generalidade das quest\u00f5es que ela abra\u00e7a, o Espiritismo est\u00e1, mais que todas as outras doutrinas, apto a secundar o movimento regenerador. Por isso que \u00e9 contempor\u00e2neo. Surgiu no momento em que podia ser \u00fatil, pois para ele tamb\u00e9m os tempos s\u00e3o chegados\u201d (<em>A G\u00eanese<\/em>, cap. XVIII, item 23).<\/p>\n\n\n\n<p>A psicologia espiritualista explicava como o ser humano, por ter uma vida animal em virtude do corpo, podia ser domesticado por castigo e recompensa, caso n\u00e3o consiga prevalecer os valores de sua alma. No entanto, se a educa\u00e7\u00e3o proposta se dedica a despertar as faculdades da alma, num ambiente de coopera\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a e o jovem v\u00e3o agir pelos pr\u00f3prios esfor\u00e7os, conquistando o conhecimento pela raz\u00e3o, a moral pelo dom\u00ednio da pr\u00f3pria vontade e a capacidade criadora pela imagina\u00e7\u00e3o. A humanidade, por esse novo caminho, encontraria o seu verdadeiro destino, que \u00e9 o de conquistar paz, equil\u00edbrio e felicidade pessoal e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas d\u00favidas ainda pairavam sobre o pensamento cient\u00edfico-filos\u00f3fico pela incompreens\u00e3o do que ocorre depois da morte. Essa psicologia espiritualista fazia uso da ci\u00eancia para compreender o ser humano, mas n\u00e3o tinha como saber o que vinha depois de uma vida. Assim, por volta de 1854, o professor Rivail iria se deparar com uma nova ordem de fen\u00f4menos, os esp\u00edritas! As mesas girantes, os chap\u00e9us volantes, as son\u00e2mbulas como porta-vozes do al\u00e9m. As respostas revolucion\u00e1rias obtidas pelas cestas que corriam sobre as toalhas das mesas, nas reuni\u00f5es medi\u00fanicas. E o professor perguntou logo no in\u00edcio: \u201cQuem s\u00e3o voc\u00eas?\u201d E a resposta selou o seu destino: \u201cSomos os Esp\u00edritos. As almas desencarnadas. Falamos do mundo espiritual, onde agimos, pensamos, tudo percebemos por meio do perisp\u00edrito, o envolt\u00f3rio espiritual que imprime em si o processo evolutivo do ser, tornando-se mais leve, mais r\u00e1pido, com o pensamento mais penetrante, quando, pelo seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o, a alma conquista suas qualidades!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A felicidade, explica Kardec em <em>O C\u00e9u e o Inferno<\/em>, \u00e9 inerente \u00e0 conquista das qualidades. E diz mais: a felicidade n\u00e3o \u00e9 pessoal! Ela se expande quando, pelos la\u00e7os espirituais, as almas formam numerosas fam\u00edlias, que se dedicam ao processo evolutivo pelo apoio m\u00fatuo, respeitando a liberdade de escolha de cada um. Todos se ajudam pela inspira\u00e7\u00e3o, durante as miss\u00f5es de cada um. Esses grupos numerosos aprendem servindo aos mais simples, numa corrente infind\u00e1vel do bem. Por vezes, re\u00fanem-se na espiritualidade, para se reverem e aprenderem com os caminhos percorridos. Outros momentos, aprendem com os Esp\u00edritos evolu\u00eddos. O mundo espiritual, para aqueles que tomaram consci\u00eancia de sua realidade, \u00e9 a compreens\u00e3o de uma humanidade que vela pela harmonia universal, agindo cada um em seu n\u00edvel, servindo \u00e0 vontade divina. \u00c9 a mais ampla diversidade refletindo a unidade divina. Essa \u00e9 a nova perspectiva dos cosmos, segundo o Espiritismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi por meio da ci\u00eancia esp\u00edrita que o casal Rivail encontrou resposta para o enigma que marcou a vida sentimental desse pai e m\u00e3e devotados ao bem da pequena Louise. Na elabora\u00e7\u00e3o de <em>O livro dos Esp\u00edritos<\/em>, tomado de emo\u00e7\u00e3o diante das explica\u00e7\u00f5es reveladoras dos Esp\u00edritos superiores, certa vez, chegou o momento de questionar: \u201cQue utilidade pode ter para um Esp\u00edrito a sua encarna\u00e7\u00e3o num corpo que morre poucos dias depois de nascer?\u201d. E os Esp\u00edritos responderam: \u201cO ser ainda n\u00e3o tem consci\u00eancia bastante desenvolvida da sua exist\u00eancia; a import\u00e2ncia da morte \u00e9 quase nula; frequentemente, como j\u00e1 dissemos, trata-se de uma prova para os pais\u201d (Quest\u00e3o 347).<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua derradeira obra, <em>A G\u00eanese<\/em>, escrita em 1858, quando faltava um ano para o seu retorno \u00e0 espiritualidade, Kardec, numa nota do primeiro cap\u00edtulo, explica aos pais que a educa\u00e7\u00e3o pelo amor ter\u00e1 sempre resultado, cada minuto de dedica\u00e7\u00e3o ter\u00e1 frutos, mesmo que a crian\u00e7a enfrente a morte prematura: \u201cMuitos pais de fam\u00edlia deploram a morte prematura de filhos, para cuja educa\u00e7\u00e3o fizeram grandes sacrif\u00edcios e dizem a si mesmos que tudo isso foi pura perda. Com o Espiritismo, eles n\u00e3o lamentam esses sacrif\u00edcios e est\u00e3o prontos a enfrent\u00e1-los, mesmo com a certeza de ver os filhos morrerem, porque sabem que se eles n\u00e3o aproveitam tal educa\u00e7\u00e3o no presente, ela servir\u00e1, primeiramente, para seu progresso como Esp\u00edrito, depois, ser\u00e3o conquistas adquiridas para a nova exist\u00eancia. Quando regressarem a este mundo, possuir\u00e3o uma bagagem intelectual que os tornar\u00e1 mais aptos para adquirir novos conhecimentos. Tais s\u00e3o os filhos que trazem ao nascer, ideias inatas, que sabem, sem precisar aprender. Se, como pais, n\u00e3o tiveram a satisfa\u00e7\u00e3o imediata de ver os filhos usarem essa educa\u00e7\u00e3o, eles a desfrutar\u00e3o tarde, seja como Esp\u00edritos, seja como homens. Talvez venham a ser de novo os pais desses mesmos filhos, que se costuma dizer superdotados pela natureza, mas que devem suas aptid\u00f5es a uma precedente educa\u00e7\u00e3o. Como tamb\u00e9m se os filhos se desviam para o mal em sequ\u00eancia da neglig\u00eancia de seus pais, estes podem vir a sofrer mais tarde pelos aborrecimentos e desgostos que lhes suscitar\u00e3o em nova exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal Rivail dedicou suas vidas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Primeiramente dos franceses. Depois, da pequena Louise, que os deixou prematuramente. Por fim, cumpriram a miss\u00e3o de estabelecer uma nova ci\u00eancia, a que vai servir de alavanca para uma revolu\u00e7\u00e3o moral, representando a educa\u00e7\u00e3o da humanidade. Ser\u00e1 o despertar de nosso futuro inevit\u00e1vel, a de tornar a Terra um mundo feliz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: 35 - Vida e Li\u00e7\u00f5es de Paulo de Tarso - entrevista com prof. 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