{"id":8215,"date":"2025-06-03T15:21:10","date_gmt":"2025-06-03T18:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=8215"},"modified":"2026-01-23T20:17:02","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:02","slug":"narrativa-empolgante-e-exclusiva-dos-irmaos-villas-boas-os-indios-conversam-com-os-espiritos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/2025\/06\/03\/narrativa-empolgante-e-exclusiva-dos-irmaos-villas-boas-os-indios-conversam-com-os-espiritos\/","title":{"rendered":"Narrativa empolgante e exclusiva dos irm\u00e3os Villas-B\u00f4as: os \u00edndios conversam com os Esp\u00edritos"},"content":{"rendered":"<p>Vivendo nas selvas, nossos her\u00f3is do Sert\u00e3o contam detalhes da vida dos \u00edndios e de suas rela\u00e7\u00f5es com o \u201csobrenatural\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Texto de Marlene R. Severino Nobre<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fizemos uma reuni\u00e3o em fam\u00edlia: os irm\u00e3os Villas-B\u00f4as, Sulamita Mareines e seu filho Ivo e n\u00f3s da <em>Hoja de Esp\u00edritu<\/em> para debatermos um assunto t\u00e3o pouco conhecido ou mal divulgado: religi\u00e3o entre os \u00edndios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivo voltara entusiasmado de suas excurs\u00f5es ao Xingu. Sulamita ganha coragem para tomar o avi\u00e3o e partir na mesma dire\u00e7\u00e3o, a fim de estudar os costumes ind\u00edgenas em seu h\u00e1bitat natural. Enquanto n\u00e3o formamos essa importante caravana, recolhemos subs\u00eddios important\u00edssimos, aqui mesmo em S\u00e3o Paulo, nesta entrevista sensacional com Cl\u00e1udio Villas-B\u00f4as.<\/p>\n\n\n\n<p>Na antessala, nossa conversa transportara-nos \u00e0 floresta. J\u00e1 respir\u00e1vamos o ar puro das matas, v\u00edamos os peixes brilhantes, dourados pelos raios de sol, a se debaterem nas m\u00e3os ex\u00edmias dos pescadores nativos, e essa evoca\u00e7\u00e3o de nossas ra\u00edzes mais genu\u00ednas embalou-nos os pensamentos nas esperan\u00e7as do porvir. No futuro, quando os desejos de paz assegurarem ao homem progresso crescente e conquistas espirituais definitivas, os governantes dos povos ser\u00e3o homens s\u00e1bios e bondosos com faculdades medi\u00fanicas amplas, garantindo \u00e0 coletividade o clima de tranquilidade como todos n\u00f3s sonhamos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria para os meninos do terceiro mil\u00eanio ser\u00e1 contada mais ou menos assim: \u201cOs nossos governantes, meus filhos, s\u00e3o os paj\u00e9s do s\u00e9culo XXI \u2013 sacerdotes, pais e mestres&#8230;\u201d. E o homem que herdou a terra ter\u00e1 em suas atitudes o ponto de encontro da ci\u00eancia, da filosofia e da religi\u00e3o, la\u00e7os indispens\u00e1veis com o Reino do Supremo doador da vida!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Cl\u00e1udio, primeiramente, quero expressar-lhe a nossa grande satisfa\u00e7\u00e3o por estarmos entrevistando voc\u00ea e o Orlando. Sabe, voc\u00eas s\u00e3o pessoas muito respeitadas por todos n\u00f3s brasileiros. A fam\u00edlia Villas-B\u00f4as est\u00e1 ligada \u00e0quilo que de mais simples e puro n\u00f3s possu\u00edmos: nossos \u00edndios. Bem, acredito que nossos leitores gostariam muito de saber: qual a religi\u00e3o dos \u00edndios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Esse \u00e9 um assunto realmente muito complexo. \u00c9 um problema, sobretudo de conceitua\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que o comportamento do \u00edndio em rela\u00e7\u00e3o ao sobrenatural poder\u00edamos conceituar de religi\u00e3o? Fa\u00e7o essa pergunta, inicialmente, para podermos colocar melhor essa quest\u00e3o. Aquilo que n\u00f3s entendemos por religi\u00e3o n\u00e3o tem correspond\u00eancia na cultura ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Em linhas gerais, os \u00edndios acreditam na sobreviv\u00eancia? Eles se comunicam com entidades que n\u00e3o possuem mais o corpo f\u00edsico? E sua cren\u00e7a em Deus?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Os \u00edndios t\u00eam os seus her\u00f3is culturais e toda uma viv\u00eancia com o sobrenatural que \u00e9 a pajelan\u00e7a. Eu n\u00e3o classificaria isso de religi\u00e3o. A pajelan\u00e7a \u00e9 uma pr\u00e1tica toda que o paj\u00e9 ou o feiticeiro deles, como n\u00f3s classificamos l\u00e1, tem para entrar em contato com o sobrenatural. \u00c9 toda uma t\u00e9cnica que eles sabem e desenvolvem conforme o momento e a necessidade. Agora, religi\u00e3o tem um conceito muito mais amplo, j\u00e1 significa adora\u00e7\u00e3o, liga\u00e7\u00e3o dos vivos com algo superior, por exemplo, com o Criador, com o ser que criou o mundo. O \u00edndio n\u00e3o acredita em um ser criador, tem os seus her\u00f3is culturais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Cl\u00e1udio, como \u00e9 escolhido um paj\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Os paj\u00e9s sempre surgem quando tem uma tend\u00eancia para isso. Para se compreender melhor, \u00e9 preciso dizer que h\u00e1 uma variedade muito grande de Esp\u00edritos, ou de categorias de Esp\u00edritos, entre os \u00edndios: h\u00e1 aqueles que residem no fundo das \u00e1guas, outros que moram nas matas. Quando o \u00edndio est\u00e1 ca\u00e7ando ou pescando, ele pode, \u00e0s vezes, ser atingido por essas entidades sobrenaturais. Quando atingido, ele fica ligado \u00e0quele determinado Esp\u00edrito; ele volta, ent\u00e3o, \u00e0 aldeia assim, perturbado, e os parentes solicitam o paj\u00e9 que j\u00e1 teve a mesma origem.<\/p>\n\n\n\n<p>O xam\u00e3 ou paj\u00e9 vem saber o que aconteceu. O \u00edndio conta, em estado de inconsci\u00eancia quase \u2013 n\u00e3o sei se fingida, mas acontece entre os \u00edndios \u2013, que foi \u201cpego\u201d pelo Jacu\u00ed \u2013 Jacu\u00ed apareceu \u2013 ou ele ouviu a flauta do Jacu\u00ed. O paj\u00e9 passa ent\u00e3o a iniciar esse \u00edndio atingido por essa influ\u00eancia sobrenatural para fazer dele um paj\u00e9 ligado a essa categoria de Esp\u00edrito que \u00e9 o Jacu\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 O Jacu\u00ed seria o Esp\u00edrito da floresta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> N\u00e3o, \u00e9 o Esp\u00edrito do fundo das \u00e1guas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Atualmente, quem \u00e9 o paj\u00e9 maior l\u00e1 no Alto Xingu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>H\u00e1 v\u00e1rios paj\u00e9s, e como tal, todos ocupam uma posi\u00e7\u00e3o dentro do grupo n\u00e3o s\u00f3 de ordem religiosa como tamb\u00e9m socioecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 No caso do Tacum\u00e3, o senhor se lembra de alguma particularidade a respeito de como ele se tornou um paj\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio <\/strong>\u2013 Conhe\u00e7o toda a hist\u00f3ria at\u00e9 ele se tornar um grande paj\u00e9. Tacum\u00e3 estava pescando no Rio Coluene e depois chegou na aldeia com muita febre. Os parentes foram pedir recursos l\u00e1 no posto, pensavam que ele estivesse com mal\u00e1ria&#8230; Quando chegamos para averiguar o que se passava, os paj\u00e9s j\u00e1 estavam em torno dele, e eles disseram: \u201cO que ele tem n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a que voc\u00eas podem curar&#8230; N\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a de civilizado. Ele foi pego pelo Jacu\u00ed, ent\u00e3o n\u00f3s \u00e9 que sabemos curar o Tacum\u00e3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7aram a pajelan\u00e7a e, realmente, o \u00edndio sarou, voltou \u00e0 situa\u00e7\u00e3o normal. Depois disso, ele passou a ter algumas perturba\u00e7\u00f5es muito estranhas; sa\u00eda para o mato correndo, entrava na aldeia, subia nas casas, rolava escada abaixo, tomado pelo Esp\u00edrito. Esta influ\u00eancia ficou at\u00e9 que ele conseguiu dominar aquela categoria de Esp\u00edrito, quando o aceitaram como uma pessoa viva que representa essa entidade espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito complexo esse problema da pajelan\u00e7a entre os \u00edndios do Xingu. N\u00f3s estamos, eu e o Orlando, fazendo um trabalho nesse sentido para explicar com detalhes o que realmente ocorre nessas situa\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de explicar, assim, em poucas linhas. Ainda mais para mim, que tenho dificuldades de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 N\u00e3o \u00e9 o que estamos ouvindo, o senhor se exprime muito bem.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 O senhor acredita que houve uma influ\u00eancia espiritual, uma intelig\u00eancia de outra dimens\u00e3o, atuando sobre o Tacum\u00e3?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Sabe, hoje existe uma confus\u00e3o muito grande com rela\u00e7\u00e3o a essas coisas, mas, desde muito tempo, acreditamos em algo que transcende \u00e0 nossa vida. A pr\u00f3pria ci\u00eancia estuda os fen\u00f4menos parapsicol\u00f3gicos e, hoje, ningu\u00e9m duvida de fatores n\u00e3o f\u00edsicos atuando sobre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 O senhor n\u00e3o duvida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> N\u00e3o duvido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 Parab\u00e9ns!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Quem pode, por exemplo, negar que a pajelan\u00e7a esteja ligada, assim, a algo que est\u00e1 fora daquilo que se pode testar!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 Que abertura! Meus parab\u00e9ns! Agora o senhor poderia contar com detalhes como foi a hist\u00f3ria das duas crian\u00e7as que o Tacum\u00e3 achou na floresta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Exato. Isso aconteceu na aldeia dos Kalapalos. O pai saiu para pescar, levando dois filhos, e a uma certa altura do dia ele deixou as crian\u00e7as \u00e0 beira da lagoa Marivarr\u00e9, uma lagoa que tem perto do nosso posto, que \u00e9 a sede do Parque. Quando voltou, as crian\u00e7as n\u00e3o estavam mais l\u00e1. Procurou por toda a parte e depois voltou para a aldeia, pedindo ajuda. Todos auxiliaram na busca, mas foi em v\u00e3o&#8230; No outro dia, um paj\u00e9 dos Kalapalos disse que um Esp\u00edrito, o Evur\u00e1, tinha levado as crian\u00e7as. O paj\u00e9 n\u00e3o conseguiu fazer a pajelan\u00e7a toda e as crian\u00e7as n\u00e3o voltaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Procuraram ent\u00e3o outros paj\u00e9s de outras tribos \u2013 Kuicuri, Meinaco, Arueiti \u2013 todos se concentraram l\u00e1 na aldeia dos Kapalos, mas foi in\u00fatil. Foi a\u00ed que algu\u00e9m se lembrou de Tacum\u00e3. A esse tempo, ele j\u00e1 era chefe da aldeia, mas n\u00e3o era respeitado como um grande paj\u00e9. Estavam esperan\u00e7osos, porque Tacum\u00e3 era filho de um paj\u00e9 que se tornara famoso e talvez pudesse descobrir as crian\u00e7as perdidas h\u00e1 cinco dias. Tacum\u00e3 veio com um grupo de paj\u00e9s auxiliares e fez toda a pajelan\u00e7a, cantando e realizando a atra\u00e7\u00e3o. Quando terminou, disse que as crian\u00e7as iriam aparecer \u00e0s 10 horas do dia seguinte, que Evur\u00e1, um Esp\u00edrito, tinha levado os meninos, mas que ele conversara com ele, e eles j\u00e1 estavam de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Not\u00e1vel, \u00e0s 10 horas ouve um grito na mata, e as crian\u00e7as apareceram na orla do cerrado. Eu estava l\u00e1! N\u00e3o posso duvidar porque assistimos tudo isso. Quando as crian\u00e7as apareceram, os parentes correram para pegar, mas Tacum\u00e3 gritava: \u201cN\u00e3o vai, sen\u00e3o ela vai e n\u00e3o volta mais&#8230;\u201d Mas os parentes correram para peg\u00e1-las, e as crian\u00e7as entraram de novo no mato e sumiram. Tacum\u00e3 fez outro trabalho com muita pajelan\u00e7a, muita fuma\u00e7a com aquele cigarro de quase 3 cm de comprimento, imenso. Fumou um atr\u00e1s do outro, entrou em transe e falou: \u201cAmanh\u00e3 ele volta outra vez, mas amanh\u00e3 ningu\u00e9m vai at\u00e9 l\u00e1, eu vou pra pegar as crian\u00e7as\u201d. Isso \u00e9 real, pergunte ao Orlando, n\u00f3s assistimos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 10 horas, houve grito das crian\u00e7as na orla do mato, e elas apareceram. Ent\u00e3o, Tacum\u00e3, com aquele chocalho na m\u00e3o, foi cantando rumo \u00e0s crian\u00e7as e auxiliado por outro paj\u00e9 levou-as pelo bra\u00e7o at\u00e9 a casa dos pais. Eram duas meninas, uma de 9 e outra de 6 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ivo \u2013 Acho que n\u00e3o havia possibilidade nem de alimenta\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Eu resumi muito, elas passaram vinte dias no mato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ivo \u2013 E voltaram intactas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> pegamos um avi\u00e3o nosso, desses pequenos, e levamos as crian\u00e7as para o posto. Elas entraram no soro, estavam s\u00f3 pele sobre osso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 O senhor poderia dizer alguma coisa sobre o cerimonial f\u00fanebre que os \u00edndios realizam?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>O Guarup \u00e9 o cerimonial f\u00fanebre. Est\u00e1 dentro da dimens\u00e3o religiosa. O \u00edndio acredita que a pessoa morta tem um outro destino, fora da realidade onde n\u00f3s estamos. Eles realizam essa cerim\u00f4nia para libertar o morto, para expuls\u00e1-lo dali, porque eles creem que o \u201cian\u201d \u2013 a alma dele \u2013 fica ali em volta dos parentes porque eles t\u00eam saudade, mas todos devem se desapegar. O cerimonial \u00e9 feito com exorcismos; \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o de ordem coletiva para que n\u00e3o haja o problema da saudade. Ap\u00f3s o Guarup, os parentes do morto s\u00e3o lavados, pintados, para que se esque\u00e7am do morto, ent\u00e3o, o vi\u00favo pode se casar, o filho n\u00e3o precisa se lembrar do pai, e a esposa, do marido, e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Os \u00edndios colocam alguma coisa nos t\u00famulos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Preciso explicar que a alma \u2013 para o \u00edndio \u2013 tem que atravessar um caminho muito longo e dif\u00edcil antes de chegar ao Uivat \u2013 o c\u00e9u \u2013, onde existe uma aldeia parecida com a daqui da Terra. Nessa aldeia, ele vai viver plenamente. Os \u00edndios colocam no t\u00famulo arco, flechas, tacape, para que o morto possa atravessar aquela regi\u00e3o dif\u00edcil, onde existe gavi\u00f5es enormes que podem destru\u00ed-lo. \u00c9 preciso vencer esse caminho dif\u00edcil para alcan\u00e7ar a aldeia da felicidade, o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Que coisa maravilhosa! A f\u00e9 pura dos simples!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Realmente, h\u00e1 detalhes de uma beleza muito grande. Em nosso livro <em>Xingu, os \u00edndios e seus mitos<\/em>, n\u00f3s analisamos tudo isso. H\u00e1 etn\u00f3logos, por exemplo, que somam religi\u00e3o e magia como uma coisa s\u00f3, mas para n\u00f3s s\u00e3o duas coisas completamente diferentes. Magia \u00e9 t\u00e9cnica, \u00e9 uma maneira de entrar em contato com o sobrenatural; religi\u00e3o \u00e9 pura adora\u00e7\u00e3o, \u00e9 compreens\u00e3o do sobrenatural; \u00e9 algo est\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 Como as escolas aqui no Brasil deturpam tanto a religi\u00e3o do \u00edndio, ensinam, por exemplo, que eles adoram o Sol, a Lua etc. quando n\u00e3o \u00e9 nada disso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> A religi\u00e3o \u00e9 sempre passada de pai para filho. Religi\u00e3o \u00e9 uma estrutura metaf\u00edsica. Todo \u00edndio sabe que ele tem um destino, a alma dele vai ficar num determinado plano. Esse conhecimento n\u00e3o exige nenhuma t\u00e9cnica, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma din\u00e2mica. Isto j\u00e1 n\u00e3o acontece com a pajelan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 A pajelan\u00e7a \u00e9 uma t\u00e9cnica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> \u00c9 um poder que t\u00eam os vivos de entrar em contato com as entidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Para cada caso tem um tipo de pajelan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Claro, cada caso est\u00e1 ligado a uma categoria de Esp\u00edrito. O paj\u00e9 nunca abrange todas as entidades espirituais. H\u00e1 paj\u00e9s do Jacu\u00ed, os do Anhang\u00fa, outros do Arat\u00ed, cada um \u00e9 dono de uma certa faixa de Esp\u00edritos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 E eles fazem cura atrav\u00e9s desse relacionamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Fazem. E at\u00e9 hoje quando ocorre alguma coisa com qualquer um deles, a gente vai l\u00e1 com nosso jipezinho. Vamos at\u00e9 a aldeia. Muitas vezes, eles falam: \u201cN\u00e3o, Cl\u00e1udio, essa n\u00e3o \u00e9 \u2018torrun-tor-run\u201d, isso n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a de cara\u00edba, isso s\u00f3 n\u00f3s \u00e9 que sabe. Espera, n\u00f3s vai curar ele, ele fica bom, n\u00e3o precisa de rem\u00e9dio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 E fica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Fica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ivo \u2013 Quando de minha visita ao Xingu, aprendi muita coisa sobre o \u00edndio e gostaria que o senhor confirmasse. \u00c9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 puni\u00e7\u00e3o para o \u00edndio quando este comete um erro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Para respondermos, \u00e9 preciso lembrarmos que na civiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o existe um chefe geral que determine, por exemplo, servi\u00e7o, trabalho etc. O \u00edndio \u00e9 organizado em fam\u00edlias, e cada fam\u00edlia \u00e9 independente uma da outra. O chefe \u2013 <em>morere-qu\u00ea<\/em> na l\u00edngua camaiur\u00e1 \u2013 \u00e9 o dono do p\u00e1tio da aldeia; a ele compete apenas promover as ocorr\u00eancias nesse p\u00e1tio, onde se desenrola a vida social dos \u00edndios. Nunca se trata de uma posi\u00e7\u00e3o de mando para determinar esta ou aquela atividade. N\u00e3o, ele s\u00f3 tem que responder pela sua fam\u00edlia. Mas qualquer cerim\u00f4nia no p\u00e1tio ele dever\u00e1 presidir.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a aldeia recebe visita de outra tribo para alguma festa, por exemplo, \u00e9 o chefe que tem de receber os vizinhos amigos. Ent\u00e3o, nesse caso, ele realmente representa o chefe, assume essa posi\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o tem autoridade para corrigir qualquer distor\u00e7\u00e3o. Falamos, assim, porque n\u00e3o h\u00e1 crime entre os \u00edndios. Um \u00edndio, por exemplo, rouba uma coisa de outro \u2013 uma flecha, um arco, um enfeite \u2013 os outros levam na goza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para dizer \u201cvoc\u00ea errou, voc\u00ea \u00e9 feio\u201d. N\u00e3o, eles n\u00e3o desvalorizam nem menosprezam as pessoas, nem as colocam em situa\u00e7\u00e3o marginalizada por qualquer ocorr\u00eancia dessas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 N\u00e3o h\u00e1 crimes entre eles?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>N\u00e3o. H\u00e1 apenas uma puni\u00e7\u00e3o de ordem m\u00e1gica, quando eles concluem que o feiticeiro foi o causador da morte de algum \u00edndio. Nesse caso, ele \u00e9 considerado por todo o grupo como elemento perigoso, e ent\u00e3o eles o eliminam, eles o matam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sulamita \u2013 Eles concluem que o \u00edndio foi morto por feiti\u00e7aria&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> Por feiti\u00e7aria, mas \u00e9 rara tamb\u00e9m essa puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Penso que no futuro, voltaremos a aproveitar todas as experi\u00eancias primitivas, adaptando-as ao grau de intelectualidade adquirido. Depois do ano 2000, esperamos ser governados por criaturas espiritualizadas que ser\u00e3o assim como os paj\u00e9s, ter\u00e3o ascend\u00eancia moral sobre n\u00f3s, trazendo ainda toda a possibilidade de interc\u00e2mbio com o mundo espiritual&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Eu acho que o primitivo tem muito para ensinar para n\u00f3s civilizados. N\u00f3s distorcemos tanto a nossa vida; como, por exemplo, as complica\u00e7\u00f5es de ordem econ\u00f4mica. Temos tanta filosofia complexa. O \u00edndio tem algo assim de puro&#8230; Quando leio Sartre ou Heidegger, fil\u00f3sofos t\u00e3o dif\u00edceis, a gente descobre, principalmente em Heidegger, no <em>Fundamento do ser<\/em>, muita coisa sobre a ess\u00eancia da verdade. Quanta profundidade h\u00e1 naquilo! N\u00e3o h\u00e1 nada daquele aumento do nosso conhecimento atrav\u00e9s da tecnologia. A gente pode ver no \u00edndio o conte\u00fado dessas posi\u00e7\u00f5es absolutas dentro da pr\u00f3pria filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Gostaria que o senhor conclu\u00edsse, explicando qual a conota\u00e7\u00e3o com o \u00edndio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>O \u00edndio \u00e9 espont\u00e2neo, todo comportamento dele \u00e9 de uma certa maneira puro. O \u00edndio \u00e9 aut\u00eantico; ele n\u00e3o ambiciona nada. \u00c9 um homem perante a vida. H\u00e1 um relacionamento extraordin\u00e1rio do \u00edndio com a \u00e9tica do Krishnamurti.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Com Krishnamurti?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>Sim, justamente pela espontaneidade. O \u00edndio n\u00e3o teme a morte. Os vivos \u00e9 quem tem o problema da saudade e tem que afastar a lembran\u00e7a do morto, mas a pessoa que est\u00e1 para morrer n\u00e3o teme a morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Interessante, os \u00edndios vivem segundo a assertiva de Nosso Senhor Jesus Cristo: \u201cA cada dia basta o seu mal\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013<\/strong> O \u00edndio bastante velho \u00e9 alegre; quanto mais idade, mais alegre ele \u00e9. Ele n\u00e3o est\u00e1 pensando: \u201cAmanh\u00e3, eu estarei morto\u201d. N\u00e3o, o \u00edndio quanto mais velho, mais alegre ele \u00e9. Ele \u00e9 assistido pelos outros, tem todo o respeito de sua aldeia. N\u00e3o gostei do livro <em>Velhice, essa realidade incomoda<\/em>, de Simone de Beauvois; em qualquer continente, pode ela ter encontrado um lugar onde o velho \u00e9 desprezado, mas aqui no Brasil, pelo menos, n\u00e3o podemos dizer que o velho \u00e9 desprezado pela nossa gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Que outro fen\u00f4meno o senhor constatou no contato com os \u00edndios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e1udio \u2013 <\/strong>In\u00fameros. Um deles ocorreu quando n\u00f3s est\u00e1vamos chegando, em 1945, na aldeia dos Kalapalos. Cinco duas depois, os \u00edndios Aur\u00e1s vieram tamb\u00e9m. Os Kalapalos ficaram surpresos porque n\u00e3o estavam esperando a visita. Os Aur\u00e1s explicaram ent\u00e3o que foram avisados de que estavam chegando civilizados na aldeia dos Kalapalos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Que interessante! Quer dizer que a miss\u00e3o de voc\u00eas j\u00e1 estava sendo anunciada pelos Esp\u00edritos aos \u00edndios!<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivendo nas selvas, nossos her\u00f3is do Sert\u00e3o contam detalhes da vida dos \u00edndios e de suas rela\u00e7\u00f5es com o \u201csobrenatural\u201d. Texto de Marlene R. Severino Nobre Fizemos uma reuni\u00e3o em fam\u00edlia: os irm\u00e3os Villas-B\u00f4as, Sulamita Mareines e seu filho Ivo e n\u00f3s da Folha Esp\u00edrita para debatermos um assunto t\u00e3o pouco conhecido ou mal divulgado: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8223,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[597],"tags":[],"edicoes":[639],"class_list":["post-8215","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-tunel-do-tempo","edicoes-639"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8215"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8217,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8215\/revisions\/8217"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8215"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=8215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}