{"id":13477,"date":"2026-05-10T23:14:57","date_gmt":"2026-05-11T02:14:57","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/?p=13477"},"modified":"2026-05-10T23:15:00","modified_gmt":"2026-05-11T02:15:00","slug":"quando-o-mal-vira-pauta-e-tambem-nos-pauta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/2026\/05\/10\/quando-o-mal-vira-pauta-e-tambem-nos-pauta\/","title":{"rendered":"Quando o mal vira pauta e tamb\u00e9m nos pauta"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO coment\u00e1rio em torno do mal, ainda e sempre, \u00e9 o mal a multiplicar-se.\u201d A advert\u00eancia, presente em <em>Conduta esp\u00edrita<\/em>, de Andr\u00e9 Luiz, \u00e9 direta e desconfort\u00e1vel. N\u00e3o trata apenas do comportamento individual, mas da din\u00e2mica de propaga\u00e7\u00e3o do mal. Na mesma linha, em <em>Agenda chr\u00e9tien<\/em>, tamb\u00e9m de Andr\u00e9 Luiz<em>,<\/em> a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais incisiva: \u201co mal n\u00e3o merece coment\u00e1rio em tempo algum\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, a ideia parece impratic\u00e1vel. Como n\u00e3o comentar o mal em um mundo atravessado por guerras, abusos, viol\u00eancia e injusti\u00e7as que nos chegam, em tempo real, pelas telas? Talvez o ponto n\u00e3o seja o sil\u00eancio absoluto, e sim o entendimento do papel que desempenhamos ao consumir, reagir e, principalmente, repercutir esse conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Informa\u00e7\u00e3o e sofrimento<\/h4>\n\n\n\n<p>Nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil estar informado. Ao mesmo tempo, nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil tornar-se um agente involunt\u00e1rio de amplifica\u00e7\u00e3o do sofrimento. O modelo de funcionamento das redes sociais n\u00e3o \u00e9 neutro: conte\u00fados que despertam indigna\u00e7\u00e3o, medo ou revolta geram mais engajamento e, portanto, mais alcance.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra Leandro Nunes, da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Esp\u00edrita de S\u00e3o Paulo (AME-SP), observa que as redes sociais n\u00e3o priorizam precis\u00e3o ou profundidade da informa\u00e7\u00e3o, mas reten\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o, engajamento e tempo de perman\u00eancia diante da tela. \u201cOs algoritmos aprendem rapidamente que conte\u00fados com medo, indigna\u00e7\u00e3o, conflito e choque moral geram mais ativa\u00e7\u00e3o emocional, o que aumenta a libera\u00e7\u00e3o de dopamina e prende a aten\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, a informa\u00e7\u00e3o tende a chegar fragmentada, simplificada e consumida em alta velocidade, sem tempo para elabora\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. \u201cIsso leva a uma compreens\u00e3o rasa e pobre da realidade\u201d, afirma. Outro efeito importante \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o das chamadas bolhas algor\u00edtmicas. Ao identificar prefer\u00eancias emocionais, cren\u00e7as e padr\u00f5es de comportamento, as plataformas passam a entregar conte\u00fados cada vez mais parecidos entre si. A consequ\u00eancia \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o distorcida do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Nunes exemplifica: \u201cQuando uma pessoa pesquisa sobre viol\u00eancia urbana, o algoritmo come\u00e7a a entregar constantemente v\u00eddeos de assaltos, crimes e trag\u00e9dias. Com o tempo, ela passa a sentir que vive em um perigo permanente, mesmo quando os dados reais n\u00e3o indicam esse cen\u00e1rio extremo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o alerta de Andr\u00e9 Luiz deixa de ser apenas moral e passa a ser estrutural: comentar o mal n\u00e3o \u00e9 apenas descrev\u00ea-lo, \u00e9 contribuir para sua circula\u00e7\u00e3o. O impacto disso \u00e9 mais que social, \u00e9 \u00edntimo. A exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua a not\u00edcias negativas produz um efeito cumulativo: ansiedade, sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, desgaste emocional. O mal, repetido, deixa de ser apenas informa\u00e7\u00e3o e passa a ser experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ignorar completamente a realidade tamb\u00e9m n\u00e3o parece solu\u00e7\u00e3o. Para o psiquiatra, h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre discernimento e aliena\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o devemos fechar os olhos para a dor do pr\u00f3ximo quando se pode ajudar. No entanto, saber de uma guerra a dez mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e passar o dia consumindo imagens de corpos e escombros n\u00e3o nos torna mais conscientes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-link-color wp-elements-3420d8352f544ee9afb0fa297bb3a871\" style=\"font-size:24px\"><strong>\u201cQuando uma pessoa pesquisa sobre viol\u00eancia urbana, o algoritmo come\u00e7a a entregar constantemente v\u00eddeos de assaltos, crimes e trag\u00e9dias. Com o tempo, ela passa a sentir que vive em um perigo permanente, mesmo quando os dados reais n\u00e3o indicam esse cen\u00e1rio extremo.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, a recusa permanente em olhar para a realidade pode at\u00e9 funcionar como defesa ps\u00edquica moment\u00e2nea, mas, quando cronificada, empobrece a capacidade de julgamento, empatia e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>En <em>Sexe et destin<\/em>, Andr\u00e9 Luiz prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de hierarquia de conten\u00e7\u00e3o. O mal, afirma o autor espiritual, deve merecer apenas a considera\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 sua corre\u00e7\u00e3o. Se ainda n\u00e3o conseguimos impedir que ele nos alcance emocionalmente, \u00e9 preciso, ao menos, n\u00e3o aliment\u00e1-lo no pensamento. E, se isso ainda n\u00e3o for poss\u00edvel, torna-se imperioso n\u00e3o lev\u00e1-lo \u00e0 palavra, para que a ideia infeliz n\u00e3o ganhe vida pr\u00f3pria e passe a agir por nossa conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 clara e profundamente atual: quando o mal \u00e9 verbalizado, ele deixa de ser apenas percep\u00e7\u00e3o e se transforma em narrativa. E narrativas, quando compartilhadas, constroem realidades. Isso n\u00e3o significa ignorar problemas ou abdicar do dever de informar. O jornalismo, ali\u00e1s, enfrenta aqui uma tens\u00e3o leg\u00edtima: como cumprir sua fun\u00e7\u00e3o social sem se tornar, ainda que involuntariamente, vetor de amplifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mal que denuncia?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a resposta esteja menos no conte\u00fado em si e mais na forma como nos relacionamos com ele. H\u00e1 uma diferen\u00e7a essencial entre informar e imergir. Entre compreender e se deixar capturar. Entre denunciar e alimentar. Para Leandro Nunes, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 \u201cver ou n\u00e3o ver\u201d, mas como temos nos colocado diante da realidade: \u201cO que se prop\u00f5e n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ver, mas transformar a forma de olhar. Escolher como, quando e quanto se expor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Filtros em prol da sa\u00fade mental<\/h4>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, ele sugere tr\u00eas filtros simples e dif\u00edceis ao mesmo tempo: observar o que se consome, perceber o que aquilo produz internamente e refletir antes de compartilhar: \u201cSe informe, mas com limites claros; evite exposi\u00e7\u00e3o continuada; prefira fontes confi\u00e1veis e evite ciclos infinitos de rolagem\u201d. E acrescenta um crit\u00e9rio cl\u00e1ssico atribu\u00eddo a S\u00f3crates: \u201cIsso \u00e9 verdade? \u00c9 bom? \u00c9 \u00fatil?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo ponto, segundo o psiquiatra, \u00e9 observar a pr\u00f3pria rea\u00e7\u00e3o emocional: \u201cSe a not\u00edcia gera apenas revolta, medo ou impot\u00eancia, sem produzir compreens\u00e3o ou a\u00e7\u00e3o, ela j\u00e1 pode estar ocupando espa\u00e7o demais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro filtro envolve responsabilidade sobre aquilo que se dissemina: \u201cAntes de compartilhar, vale perguntar: isso esclarece ou apenas amplifica barulho? Ajuda algu\u00e9m ou \u00e9 apenas descarga emocional? Est\u00e1 contribuindo ou s\u00f3 reagindo?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, a discuss\u00e3o talvez seja menos sobre tecnologia e mais sobre consci\u00eancia. Em uma era de hiperestimula\u00e7\u00e3o emocional e aten\u00e7\u00e3o sequestrada, sa\u00fade mental pode significar justamente a capacidade de permanecer em contato com a realidade sem ser dominado por ela. Leandro resume essa tens\u00e3o em uma frase simples: \u201c\u00c9 o estar no mundo, sem ser do mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja esse o grande desafio do nosso tempo: n\u00e3o fechar os olhos para o mal, mas tamb\u00e9m n\u00e3o permitir que ele se instale dentro de n\u00f3s como morada permanente. No fim, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 apenas o volume de sofrimento que circula pelas telas, mas o espa\u00e7o que damos a ele dentro da pr\u00f3pria consci\u00eancia. E esse espa\u00e7o, diferente do<em> feed<\/em>, ainda est\u00e1 sob nossa responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">R\u00e9f\u00e9rences<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">LUIZ, Andr\u00e9 (Esprit). <strong>Agenda crist\u00e3. <\/strong>Psicografado por Francisco C\u00e2ndido Xavier. 45. ed. Bras\u00edlia, DF: FEB, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">LUIZ, Andr\u00e9 (Esprit). <strong>Comportement spirite. <\/strong>Psicografado por Waldo Vieira. Bras\u00edlia, DF: FEB, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><a>LUIZ, Andr\u00e9 (Esprit). <strong>Sexo e destino. <\/strong>Psicografado por Francisco C\u00e2ndido Xavier e Waldo Vieira. Bras\u00edlia, DF: FEB, <\/a>2020. (Cole\u00e7\u00e3o A Vida no Mundo Espiritual, 12).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO coment\u00e1rio em torno do mal, ainda e sempre, \u00e9 o mal a multiplicar-se.\u201d A advert\u00eancia, presente em Conduta esp\u00edrita, de Andr\u00e9 Luiz, \u00e9 direta e desconfort\u00e1vel. N\u00e3o trata apenas do comportamento individual, mas da din\u00e2mica de propaga\u00e7\u00e3o do mal. Na mesma linha, em Agenda crist\u00e3, tamb\u00e9m de Andr\u00e9 Luiz, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":13070,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"edicoes":[796],"class_list":["post-13477","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade","edicoes-796"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13477"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13478,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13477\/revisions\/13478"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13070"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13477"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=13477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}