{"id":2433,"date":"2021-11-03T11:21:10","date_gmt":"2021-11-03T14:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=2433"},"modified":"2026-01-23T20:17:18","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:18","slug":"andre-trigueiro-fala-sobre-consumo-consciente-o-caminho-para-a-nossa-sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/2021\/11\/03\/andre-trigueiro-fala-sobre-consumo-consciente-o-caminho-para-a-nossa-sobrevivencia\/","title":{"rendered":"Consumo consciente: o caminho para a nossa sobreviv\u00eancia"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"720\" src=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Andre_Trigueiro.jpg\" alt=\"Andre Trigueiro\" class=\"wp-image-2466\" srcset=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Andre_Trigueiro.jpg 720w, https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Andre_Trigueiro-300x300.jpg 300w, https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Andre_Trigueiro-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption>Andre Trigueiro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9 Trigueiro \u00e9 jornalista p\u00f3s-graduado em Gest\u00e3o Ambiental pela COPPE\/UFRJ, onde leciona a disciplina \u201cGeopol\u00edtica Ambiental\u201d. Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-Rio, \u00e9 tamb\u00e9m autor dos livros <em>Cidades e solu\u00e7\u00f5es \u2013 como construir uma sociedade sustent\u00e1vel<\/em> (Ed. Leya, 2017); <em>Mundo Sustent\u00e1vel \u2013 abrindo espa\u00e7o na m\u00eddia para um planeta em transforma\u00e7\u00e3o<\/em> (Ed. Globo, 2005), <em>Mundo sustent\u00e1vel 2 \u2013 novos rumos para um planeta em crise <\/em>(Ed. Globo, 2012); <a><em>Mundo sustent\u00e1vel \u2013 abrindo espa\u00e7o na m\u00eddia para um planeta em transforma\u00e7\u00e3o <\/em>(Ed. Globo, 2005), <\/a>coordenador editorial e um dos autores do livro <em>Meio ambiente no s\u00e9culo XXI<\/em> (Ed. Sextante, 2003), <em>Espiritismo e ecologia<\/em> (Ed. FEB, 2009) e <em>A for\u00e7a do um<\/em> (2019). Premiado in\u00fameras vezes por seu trabalho como jornalista ambiental, Trigueiro \u00e9 tamb\u00e9m conferencista esp\u00edrita, tendo a sustentabilidade como um dos temas de suas palestras, que leva Brasil afora como um alerta a todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias antes do in\u00edcio da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2021, a COP 26, Andr\u00e9 Trigueiro falou com a <em>Folha Esp\u00edrita<\/em> sobre consumo consciente e o que precisamos fazer, com urg\u00eancia, para salvar a n\u00f3s mesmos em um mundo que n\u00e3o precisa da nossa esp\u00e9cie para seguir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-consci-ncia-e-qualidade-de-vida\"><strong>Consci\u00eancia e qualidade de vida<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Folha Esp\u00edrita \u2013 As pessoas t\u00eam consci\u00eancia sobre o quanto o que consomem impacta no planeta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9 Trigueiro \u2013<\/strong> A quest\u00e3o \u00e9 que a maioria da popula\u00e7\u00e3o do planeta n\u00e3o consome hoje o suficiente para ter qualidade de vida e uma menor parte o faz muito al\u00e9m do necess\u00e1rio, gerando distor\u00e7\u00f5es e desequil\u00edbrios. Ent\u00e3o, o primeiro ponto \u00e9 que a gente precisa equilibrar essa balan\u00e7a e promover a disponibilidade de recursos minimamente necess\u00e1rios. Estou falando de moradia digna, alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, ao transporte, lazer e entretenimento. Tudo isso envolve consumo de \u00e1gua, mat\u00e9ria-prima, energia e infraestrutura para termos qualidade de vida. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o \u00e9 que precisamos fazer a justa reparti\u00e7\u00e3o dos recursos, de forma \u00e9tica e sustent\u00e1vel, sendo seletivos em rela\u00e7\u00e3o aos meios de produ\u00e7\u00e3o e conscientes na forma de consumir os recursos. A consci\u00eancia cresce e se expande, ela passa por certifica\u00e7\u00e3o e selagem, pela no\u00e7\u00e3o de que todos os produtos, todos os itens consum\u00edveis, t\u00eam uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s e a gente precisa conhec\u00ea-la para fazer as escolhas certas, premiando, recompensando quem protege o meio ambiente e a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e descartando quem depreda, destr\u00f3i, devasta o meio ambiente, sem respeitar as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Podemos considerar que de 50 anos para c\u00e1 o homem adotou um modelo de desenvolvimento baseado no consumo e isso impactou fortemente na produ\u00e7\u00e3o de lixo, que em sua maioria n\u00e3o \u00e9 reciclado e afeta a vida de seres em todo planeta. O que fazer para reverter essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013<\/strong> Na verdade, desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, h\u00e1 mais de 200 anos, a sofistica\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o intensificou a necessidade de disponibilizar bens de consumo e abriu o apetite para o que se convencionou chamar de sociedade de consumo. Ent\u00e3o, o fomento ao consumismo vem de mais tempo. A produ\u00e7\u00e3o monumental de lixo \u00e9 apenas uma das quest\u00f5es problem\u00e1ticas referentes ao consumismo, e n\u00f3s ainda n\u00e3o conseguimos resolver a contento essa avalanche de res\u00edduos e rejeitos que s\u00e3o descartados de forma invariavelmente inadequada, poluindo o planeta e gerando impacto sobre biodiversidade e tamb\u00e9m sobre a nossa sa\u00fade. Deixando claro que a reciclagem, embora seja importante, n\u00e3o \u00e9 uma panaceia. Ela n\u00e3o resolve todos os problemas da produ\u00e7\u00e3o monumental de lixo. Todo processo de reciclagem tamb\u00e9m demanda energia, emite gases estufa, gera esgoto. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 simples a equa\u00e7\u00e3o. A reciclagem reduz impacto, mas n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o definitiva do problema do lixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-medium-font-size\"><strong>N\u00e3o podemos ser predadores de n\u00f3s mesmos e exaurir as condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade no planeta, e isso passa pelo consumo consciente<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-momento-pede-mudan-as-na-cultura\"><strong>O momento pede mudan\u00e7as na cultura<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Quais caminhos temos de seguir para alcan\u00e7ar um modelo no qual o consumo n\u00e3o seja um agente de destrui\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro<\/strong> \u2013 A solu\u00e7\u00e3o passa por educa\u00e7\u00e3o. Precisamos formar consumidores conscientes, pessoas que entendam que o consumo \u00e9 um ato pol\u00edtico. Ele n\u00e3o deveria ser associado apenas a lazer e entretenimento, satisfa\u00e7\u00e3o e prazer. A gente precisa entend\u00ea-lo como um elemento indutor da sustentabilidade ou da destrui\u00e7\u00e3o, ter uma pol\u00edtica p\u00fablica, um modelo de desenvolvimento que estimule cr\u00e9dito e financiamento para quem tem sensibilidade para as quest\u00f5es do consumo consciente, do ecodesign e de materiais que n\u00e3o sejam degradantes, ou seja, para quem fa\u00e7a a coisa certa e embara\u00e7os, problemas, burocracia, \u00f4nus financeiro para quem vai na contram\u00e3o disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-medium-font-size\"><strong>Se o nome que voc\u00ea pretende usar para sinalizar o caminho que a corpora\u00e7\u00e3o deve seguir \u00e9 ESG ou outro qualquer isso para mim \u00e9 o que menos importa. O mais importante \u00e9 que haja compromisso e que isso n\u00e3o seja um interesse circunstancial, porque moda \u00e9 algo que passa. O que a gente precisa mudar \u00e9 a cultura.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Consumir de forma consciente \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013<\/strong> Certamente a sobreviv\u00eancia da nossa esp\u00e9cie neste planeta passa por uma outra forma de pensar e praticar o consumo. O consumo favorece a vida, o consumismo depreda, devasta e destr\u00f3i as condi\u00e7\u00f5es que suportam a vida na Terra. N\u00e3o podemos ser predadores de n\u00f3s mesmos, n\u00e3o podemos exaurir as condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade no planeta, e isso passa pelo consumo consciente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Hoje muito se fala em ESG. Para as empresas, isso vem se tornando algo estrat\u00e9gico, e sabemos que ser\u00e3o cada vez mais cobradas por isso. N\u00e3o \u00e9 estranho que a sociedade venha despertando para isso, mas, ao mesmo tempo, pouco faz para, de fato, mudar a situa\u00e7\u00e3o? O que falta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>Bom, com toda franqueza, ESG para mim \u00e9 mais do mesmo. H\u00e1 30 anos, na Rio-92 surgiu o conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel. Na Rio + 20, o de economia verde. Agora fala-se em ESG. Ent\u00e3o, n\u00e3o importa o nome, a express\u00e3o da moda. O que faz a diferen\u00e7a \u00e9 a atitude. Que as empresas se conven\u00e7am de que, at\u00e9 por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia no mercado, pelo n\u00edvel crescente de exig\u00eancia dos consumidores, pela exist\u00eancia das redes sociais pressionando o setor privado, as grandes corpora\u00e7\u00f5es, pela necessidade de atender \u00e0s expectativas de acionistas, se essas empresas t\u00eam capital aberto, h\u00e1 uma nova configura\u00e7\u00e3o de expectativas e exig\u00eancias do mercado. Se o nome que voc\u00ea pretende usar para sinalizar o caminho que a corpora\u00e7\u00e3o deve seguir \u00e9 ESG ou outro qualquer isso para mim \u00e9 o que menos importa. O mais importante \u00e9 que haja compromisso e que isso n\u00e3o seja um interesse circunstancial, porque moda \u00e9 algo que passa. O que a gente precisa mudar \u00e9 a cultura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Recentemente, uma pesquisa apontou que as pessoas consumiram de forma mais consciente na pandemia, evitando, por exemplo, o desperd\u00edcio de alimentos. Como voc\u00ea enxerga isso? Voc\u00ea acha que a sociedade como um todo est\u00e1, realmente, fazendo essa reflex\u00e3o? Com a vida voltando ao seu ritmo p\u00f3s-pandemia, o que voc\u00ea acha que fica disso tudo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>A pandemia ainda n\u00e3o acabou.O p\u00f3s-pandemia \u00e9 algo que a gente n\u00e3o sabe exatamente como ser\u00e1, mas eu, desde o in\u00edcio desta que \u00e9 a maior pandemia do nosso tempo, constru\u00ed a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o ter\u00edamos por que acreditar que a pandemia por si s\u00f3 haveria de determinar uma mudan\u00e7a em escala na cultura, no pensamento e na expectativa das pessoas. Nem todos aproveitaram a oportunidade para, realmente, rever conceitos, posicionamentos, ter a coragem de enxergar as coisas dentro de outra perspectiva, outro ponto de vista. Portanto, com toda a franqueza, n\u00e3o tenho nenhum motivo para acreditar que a pandemia significou uma ruptura importante, uma mudan\u00e7a sens\u00edvel, em alguma ordem de grandeza impressionante que expresse novas atitudes, novas formas de fazer, pensar e sentir. Eu n\u00e3o estou convencido disso. E, sinceramente, at\u00e9 gostaria que isso acontecesse, mas n\u00e3o tem nenhuma evid\u00eancia de que algo v\u00e1 nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-medium-font-size\"><strong>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o a\u00ed, os preju\u00edzos j\u00e1 est\u00e3o acontecendo, e a velocidade com que essa crise se agiganta \u00e9 algo fact\u00edvel. A gente n\u00e3o precisa fazer muito esfor\u00e7o para testemunhar que o clima mudou. E mudou para pior no que diz respeito \u00e0 nossa qualidade de vida, nossa resili\u00eancia, nosso bem-estar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 A ativista sueca Greta Thunberg criticou recentemente que os governos t\u00eam muito bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Voc\u00ea n\u00e3o acha que os pa\u00edses tamb\u00e9m est\u00e3o muito preocupados com suas economias e pouco com o bem comum, buscando a\u00e7\u00f5es conscientes que impactam toda a humanidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>Greta Thunberg foi muito feliz ao ironizar o excesso de discursos, os investimentos em marketing vultosos em contraposi\u00e7\u00e3o a atitudes e compromissos que foram assumidos e que se traduzem como a\u00e7\u00f5es afer\u00edveis, mensur\u00e1veis, no plano do concreto, da forma mais r\u00e1pida e efetiva poss\u00edvel. O que na verdade me parece dram\u00e1tico, e \u00e9 um problema do nosso tempo, \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o estamos conseguindo traduzir em atitudes o que parece consensual no plano do discurso. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia ainda grande que separa os diagn\u00f3sticos bem contundentes da ci\u00eancia, nos chamando a aten\u00e7\u00e3o para o senso de urg\u00eancia na tomada de decis\u00e3o, freando o aquecimento global e os tomadores de decis\u00e3o que n\u00e3o conseguem avan\u00e7ar numa agenda de curto e m\u00e9dio prazo. Se comprometem no longo prazo quando eles mesmos n\u00e3o estar\u00e3o mais aqui ou alijados da atividade pol\u00edtica. Ent\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 se comprometendo no longo prazo, e nele n\u00e3o h\u00e1 tempo para resolvermos problemas que precisam ser enfrentados agora. O aquecimento global e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o a\u00ed, os preju\u00edzos est\u00e3o acontecendo, e a velocidade com que essa crise se agiganta \u00e9 algo fact\u00edvel. A gente n\u00e3o precisa fazer muito esfor\u00e7o para testemunhar que o clima mudou. E mudou para pior no que diz respeito \u00e0 nossa qualidade de vida, nossa resili\u00eancia, nosso bem-estar. E essa mudan\u00e7a do clima j\u00e1 determina preju\u00edzos crescentes que alguns pa\u00edses se d\u00e3o ao trabalho de constatar e manifestar preocupa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o suficiente para deixar de subsidiar combust\u00edvel f\u00f3ssil, para conter desmatamentos, para financiar pa\u00edses pobres que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de lidar com o que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Ent\u00e3o, esse estado de in\u00e9rcia nos custa muito caro. E n\u00e3o \u00e9 de agora, j\u00e1 tem algum tempo. Um relat\u00f3rio chamado <em>Stern review<\/em>, de Nicholas Stern, um ex-diretor do Banco Mundial, mostra exatamente que o custo de n\u00e3o se fazer nada \u00e9 muito maior do que o de fazer o que se recomenda para evitar uma cat\u00e1strofe clim\u00e1tica. E n\u00f3s continuamos patinando, hesitando, e isso custa caro para a humanidade. Vamos pagar essa conta.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Em um mundo com muitos pa\u00edses com baixo \u00edndice de educa\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria, como educar sobre consumo consciente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>\u00c9 um equ\u00edvoco achar que s\u00f3 pessoas de posse, s\u00f3 as que t\u00eam uma boa educa\u00e7\u00e3o compreendem a import\u00e2ncia do consumo consciente. Quando falamos do tema em comunidades de baixa renda, por exemplo, estamos nos referindo ao aproveitamento de partes dos alimentos que s\u00e3o descartados no lixo. Quando s\u00e3o aproveitadas cascas de frutas ou legumes ou partes das verduras que costumam ser desprezadas isso \u00e9 consumo consciente. Quando s\u00e3o reaproveitadas certas embalagens ou se percebe valor de mercado de lixo seco, papel, papel\u00e3o, pl\u00e1stico, metais e elas n\u00e3o s\u00e3o jogadas no lixo, mas segregadas e busca-se fazer disso mat\u00e9ria-prima retorn\u00e1vel para a ind\u00fastria, \u00e9 uma forma de se realizar o consumo consciente. Quando se transforma lixo org\u00e2nico, restos de frutas e legumes em mat\u00e9ria-prima para compostagem, produzindo adubo de excelente qualidade, isso \u00e9 consumo consciente. Eu acho que a gente precisa entender melhor o universo do consumo consciente. Ele tem diferentes leituras, abordagens e compreens\u00f5es, independentemente do n\u00edvel de renda.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-import-ncia-de-fazer-a-diferen-a-para-o-mundo\"><strong>A import\u00e2ncia de fazer a diferen\u00e7a para o mundo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Como podemos salvar o mundo para n\u00f3s mesmos e as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>O mundo n\u00e3o precisa ser salvo. N\u00e3o \u00e9 ele que est\u00e1 em perigo, somos n\u00f3s. Dependemos dele, n\u00e3o ele de n\u00f3s. Portanto, \u00e9 bom estarmos muito bem informados sobre o que est\u00e1 em jogo. N\u00e3o \u00e9 a Terra, somos n\u00f3s. E se continuarmos desperdi\u00e7ando as oportunidades de compreendermos como a natureza funciona e nos beneficiarmos de uma rela\u00e7\u00e3o mais equilibrada, harmoniosa e inteligente com o meio ambiente, se acharmos que n\u00e3o h\u00e1 risco, quando na verdade h\u00e1, somos n\u00f3s que estamos amea\u00e7ados, e n\u00e3o o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 O que voc\u00ea acha que \u00e9 preciso fazer para mudar j\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>Em primeiro lugar, precisamos ter governantes que n\u00e3o sejam analfabetos ambientais e coloquem a sustentabilidade no eixo das pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso \u00e9 fundamental. Em segundo lugar, empresas, corpora\u00e7\u00f5es que sejam alvo de boicote, de consumidores que percebam maneiras equivocadas dessas empresas ou corpora\u00e7\u00f5es fazerem gest\u00e3o, operar em seus neg\u00f3cios. Tamb\u00e9m acho importante eliminarmos por completo a cultura do descart\u00e1vel. N\u00e3o faz sentido em pleno s\u00e9culo XXI termos pl\u00e1sticos descart\u00e1veis da forma como vemos disseminado. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acharmos que o \u201cusou e jogou fora\u201d seja uma solu\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o \u00e9. O culto ao descart\u00e1vel \u00e9 um problema. Acho tamb\u00e9m que a gente precisa se dar conta do ato de comer. N\u00e3o \u00e9 um ato, eu diria, que deveria ser desprovido de consci\u00eancia. Obviamente para aqueles que t\u00eam como realizar essa escolha, porque num pa\u00eds que voltou a ter fome n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00e3o para milh\u00f5es de fam\u00edlias, come-se o que se tem \u00e0 frente, de forma indigna. Para um pa\u00eds que \u00e9 megaprodutor mundial de alimentos, ter fome \u00e9 uma vergonha. Mas eu estou dizendo que, em circunst\u00e2ncias ideais, a gente devia ter muito cuidado para n\u00e3o ingerir qualquer alimento desprezando a origem. Saber em que circunst\u00e2ncias esse alimento foi produzido, se de origem animal, n\u00e3o desconhecer todo o processo que envolve dor, crueldade, sofrimento que recai sobre os bichos, se h\u00e1 pesticida ou transg\u00eanico, em que circunst\u00e2ncias e que cuidados foram tomados nesse sentido, tudo n\u00e3o deveria ser ignorado. Investir em educa\u00e7\u00e3o de qualidade tamb\u00e9m \u00e9 importante. E os pais t\u00eam de participar das reuni\u00f5es na escola, reivindicar ajustes na grade curricular, preparando essa garotada para encarar os desafios que s\u00e3o imensos e est\u00e3o se multiplicando. Dentro de casa, t\u00eam de complementar essa forma\u00e7\u00e3o escolar, ajudando a garotada a compreender o que importa fazer e de que jeito, n\u00e3o sendo passivos e fazendo a diferen\u00e7a no dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color has-medium-font-size\"><strong>H\u00e1 uma vis\u00e3o muito moderna, arrojada, do Espiritismo no s\u00e9culo XIX de que n\u00f3s dever\u00edamos ser mais cautelosos no \u00edmpeto consumista. Consumir o necess\u00e1rio seria, em linhas gerais, a meta. E n\u00f3s precis\u00e1vamos nos contentar com menos do que n\u00f3s normalmente ambicionamos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Voc\u00ea acha que a raiz do consumo desenfreado reside na for\u00e7a do materialismo que ganhou espa\u00e7o nos s\u00e9culos XIX e XX? O Espiritismo nos dando uma vis\u00e3o de vida futura \u00e9 uma alternativa ao materialismo e com isso poderia ajudar no redirecionamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013<\/strong> Olha, tem uma diferen\u00e7a entre teoria e pr\u00e1tica. Tem muito esp\u00edrita consumista. Eu sinceramente n\u00e3o me iludo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como pessoas que se dizem espiritualizadas s\u00e3o muito distra\u00eddas, dispersas ou alienadas em rela\u00e7\u00e3o a essa inclina\u00e7\u00e3o consumista. E acho que os esp\u00edritas precisam estudar. Em <em>O livro dos Esp\u00edritos<\/em>, na parte das Leis Morais, h\u00e1 um subitem na lei de conserva\u00e7\u00e3o que Kardec, com maestria, destaca que seria um convite para o discernimento entre o que seja necess\u00e1rio e sup\u00e9rfluo. N\u00f3s, portanto, estamos sendo desafiados a praticar uma vis\u00e3o espiritualizada da vida, n\u00e3o retroalimentando o consumismo. Ent\u00e3o, a resposta objetivamente \u00e9: o Espiritismo oferece ferramentas \u00fateis para a compreens\u00e3o do que seja o consumo consciente. Mas o Espiritismo \u00e9 uma coisa, e o Movimento Esp\u00edrita \u00e9 outro. As pessoas que se dizem esp\u00edritas nem sempre est\u00e3o atentas a esses detalhes. Isso para mim \u00e9 relativamente simples de se perceber.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-desperd-cio-imoral\"><strong>Desperd\u00edcio Imoral<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Religi\u00e3o e consumo combinam?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>Como eu j\u00e1 disse, o consumo favorece a vida. O problema n\u00e3o \u00e9 consumir. Para viver a gente precisa consumir. O consumismo traz o sufixo \u201cismo\u201d, que remete ao desperd\u00edcio e excesso. E a\u00ed temos um problema moral. O desperd\u00edcio \u00e9 imoral em qualquer cultura. Em qualquer lugar do mundo n\u00e3o se deveria desperdi\u00e7ar \u00e1gua, alimento, tempo, energia, nada. O desperd\u00edcio \u00e9 imoral. N\u00e3o h\u00e1 um problema em rela\u00e7\u00e3o ao consumo, mas ao consumismo, por atentar contra a vida ou \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que a sustentam. Temos uma contraposi\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e consumismo, mas n\u00e3o entre religi\u00e3o e consumo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FE \u2013 Que li\u00e7\u00f5es nos d\u00e3o os Esp\u00edritos sobre o consumo e a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trigueiro \u2013 <\/strong>Na quest\u00e3o n. 705 de <em>O livro dos Esp\u00edritos<\/em>, dentro da lei de conserva\u00e7\u00e3o, Kardec indaga \u00e0 espiritualidade maior: \u201cPor que nem sempre a Terra produz bastante para fornecer ao homem o necess\u00e1rio?\u201d A resposta \u00e9, a meu ver, a grande s\u00edntese do consumo consciente: \u201cA Terra produziria sempre o necess\u00e1rio, se com o necess\u00e1rio soubesse o homem contentar-se\u201d. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma vis\u00e3o muito moderna, arrojada, do Espiritismo no s\u00e9culo XIX de que dever\u00edamos ser mais cautelosos no \u00edmpeto consumista. Consumir o necess\u00e1rio seria, em linhas gerais, a meta. E n\u00f3s precis\u00e1vamos nos contentar com menos do que n\u00f3s normalmente ambicionamos. A mat\u00e9ria n\u00e3o resume felicidade. Acumula\u00e7\u00e3o de bens e posses \u00e9 trai\u00e7oeira para quem leva a s\u00e9rio o desenvolvimento espiritual. Mat\u00e9ria \u00e9 ferramenta, \u00e9 acess\u00f3rio. A mat\u00e9ria n\u00e3o resume o sentido da exist\u00eancia nem os objetivos mais importantes da nossa passagem por esse planeta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: 110 - Como \u00e9 nossa Vida no Al\u00e9m - Live do Grupo Esp\u00edrita Cairbar Schutel - parte 1\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/73u1bjcv0PiuIdqSgtPf2R?si=541650a521f64c0a&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Portal de Luz - 30\/10\/2021\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DnsLJxp_23U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias antes do in\u00edcio da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2021, a COP 26, Andr\u00e9 Trigueiro falou com a Folha Esp\u00edrita sobre consumo consciente e o que precisamos fazer, com urg\u00eancia, para salvar a n\u00f3s mesmos em um mundo que n\u00e3o precisa da nossa esp\u00e9cie para seguir.<\/p>","protected":false},"author":8,"featured_media":2551,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"edicoes":[481],"class_list":["post-2433","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade","edicoes-572-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2433"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2571,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433\/revisions\/2571"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2433"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=2433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}