{"id":2843,"date":"2022-02-02T14:54:08","date_gmt":"2022-02-02T17:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaespirita.com.br.br\/jornal\/?p=2843"},"modified":"2026-01-23T20:17:16","modified_gmt":"2026-01-23T23:17:16","slug":"agnotologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/2022\/02\/02\/agnotologia\/","title":{"rendered":"Agnotologia a nova ci\u00eancia que estuda a \u201cprodu\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia\u201d de forma intencional"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/folhaespirita.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/marionete.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2844\" width=\"747\" height=\"405\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos 20 anos universidades da Europa e do mundo se dedicam aos estudos de uma nova ci\u00eancia chamada Agnotologia. O termo ficou conhecido em 2005 gra\u00e7as ao trabalho do historiador americano Robert Proctor, da Universidade de Stanford, que passou a difundir o assunto em diversas palestras que resultaram no livro \u201cAgnotologia: a constru\u00e7\u00e3o e a desconstru\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo a linha de Proctor, outros historiadores da ci\u00eancia como Londa Schiebinger, Peter Galison e Naomi Oreskes passaram a investigar e conceituar o ramo cient\u00edfico que estuda tanto a produ\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia sendo produzida de forma intencional, com o objetivo de obter vantagens, como tamb\u00e9m a n\u00e3o intencional.<\/p>\n\n\n\n<p>Para prosseguirmos com a mat\u00e9ria sobre agnotologia, \u00e9 preciso entender o sentido de neologismo. Tudo parece muito dif\u00edcil, s\u00f3 parece, \u00e9 muito f\u00e1cil de compreender, vamos por partes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-que-neologismo\">O que \u00e9 Neologismo<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.significados.com.br\/neologismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Neologismo<\/a> \u00e9 o <em>processo de cria\u00e7\u00e3o de uma nova palavra na l\u00edngua devido \u00e0 necessidade de designar novos objetos ou novos conceitos<\/em> ligados \u00e0s diversas \u00e1reas: tecnologia, arte, economia, esportes etc. Um neologismo \u00e9 criado atrav\u00e9s de processos diversos, como:<em>justaposi\u00e7\u00e3o, aglutina\u00e7\u00e3o, prefixa\u00e7\u00e3o, sufixa\u00e7\u00e3o, abrevia\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos<\/em> existentes em uma outra l\u00edngua, ou ainda atrav\u00e9s de um<em>novo sentido dado a uma palavra existente<\/em>. Faz parte de toda l\u00edngua viva a cria\u00e7\u00e3o de novas palavras. Com o tempo, esses neologismos s\u00e3o adicionados ao dicion\u00e1rio e passam a fazer parte do l\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em><strong>neologismo popular<\/strong><\/em> \u00e9 criado pelos pr\u00f3prios falantes, seja nas conversas espont\u00e2neas do dia a dia, com o uso frequente de g\u00edrias, seja na Internet, nas comunica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas. Quando a ci\u00eancia \u00e9 respons\u00e1vel pela atribui\u00e7\u00e3o de nomes aos novos aparelhos e \u00e0s m\u00e1quinas inventadas e de introduzir novos termos t\u00e9cnicos na linguagem, d\u00e1-se o nome de <em>neologismo cient\u00edfico <\/em>ou<em> neologismo t\u00e9cnico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O <em><strong>neologismo liter\u00e1rio<\/strong><\/em> \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de novas palavras por escritores, compositores de m\u00fasica e poetas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Neologismo estrangeiro<\/em> ou <em>estrangeirismo<\/em> refere-se \u00e0s palavras de outro idioma incorporadas \u00e0 l\u00edngua. Algumas s\u00e3o \u201caportuguesadas\u201d, ou seja, muda-se a maneira de escrever original para ser compreendida por todos. Exemplo: futebol (do ingl\u00eas <em>football<\/em>), beb\u00ea (do ingl\u00eas <em>baby<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Um neologismo pode tamb\u00e9m ser classificado de <em>neologismo completo<\/em> (criado de acordo com a forma e o sentido da palavra, como, por exemplo, \u201cmicrofone\u201d) e de <em>neologismo incompleto<\/em> (palavras existentes no idioma e que tomam novos significados, como, por exemplo, papudo \u2013 que tem grande papo, mas que significa tamb\u00e9m indiv\u00edduo arrogante).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-vamos-partir-agora-para-a-agnotologia\">Vamos partir, agora, para a <em>agnotologia<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>O neologismo \u201cagnotologia\u201d foi criado pelo historiador americano Robert N. Proctor, professor da Universidade de Sttanford, quando ministrava diversas palestras no ano de 2005. A partir dessas palestras, escreveu, juntamente com Londa Schiebinger, o livro <em>Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance<\/em> <em>(Agnotologia: a constru\u00e7\u00e3o e a desconstru\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia)<\/em>. Segundo o autor:<em> <\/em>\u201cAgnotologia \u00e9 a \u00e1rea de estudo multidisciplinar que se dedica \u00e0 an\u00e1lise de fen\u00f4menos de desinforma\u00e7\u00e3o cultural e socialmente induzidos, com vista \u00e0 deliberada promo\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia ou da incerteza na opini\u00e3o p\u00fablica acerca de determinado t\u00f3pico, nomeadamente atrav\u00e9s da difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o err\u00f4nea ou n\u00e3o verificada, da publica\u00e7\u00e3o de dados descontextualizados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo do pesquisador partiu de um memorando secreto da ind\u00fastria do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tabaco\">tabaco<\/a> que caiu em dom\u00ednio p\u00fablico em 1979 sob o nome de \u201cO Tabagismo e a proposta de sa\u00fade\u201d.O artigo foi escrito uma d\u00e9cada antes pela empresa Brown &amp; Williamson e revelou muitas das t\u00e1ticas empregadas pelas grandes companhias para neutralizar os esfor\u00e7os antitabagistas. \u201cO que n\u00e3o sabemos, e por que n\u00e3o sabemos? O que mant\u00e9m viva a ignor\u00e2ncia ou permite que ela seja usada como instrumento pol\u00edtico? Agnotologia \u2013 o estudo da ignor\u00e2ncia \u2013 fornece uma nova perspectiva te\u00f3rica para ampliar as quest\u00f5es tradicionais sobre \u2018como sabemos\u2019 para perguntar: por que n\u00e3o sabemos o que n\u00e3o sabemos? Os ensaios reunidos em <em>Agnotology <\/em>mostram que a ignor\u00e2ncia, muitas vezes, \u00e9 mais do que apenas a aus\u00eancia de conhecimento; tamb\u00e9m pode ser o resultado de lutas culturais e pol\u00edticas. A ignor\u00e2ncia tem uma hist\u00f3ria e uma geografia pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m h\u00e1 coisas que as pessoas n\u00e3o querem que voc\u00ea saiba (\u201cA d\u00favida \u00e9 nosso produto\u201d \u00e9 o <em>slogan<\/em> da ind\u00fastria do tabaco). Cap\u00edtulos individuais tratam de exemplos dos dom\u00ednios da mudan\u00e7a clim\u00e1tica global, sigilo militar, orgasmo feminino, negacionismo ambiental, paleontologia nativa americana, arqueologia te\u00f3rica, ignor\u00e2ncia racial e muito mais. O objetivo deste volume \u00e9 entender melhor como e por que v\u00e1rias formas de conhecimento n\u00e3o surgem, ou desaparecem, ou se tornam invis\u00edveis\u201d, explica o autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das se\u00e7\u00f5es mais importantes do documento analisava como se deveria vender os cigarros ao grande p\u00fablico: \u201ca d\u00favida \u00e9 o nosso produto. A d\u00favida \u00e9 a melhor maneira de competir com o volume de informa\u00e7\u00e3o que existe na mente do p\u00fablico em geral. Tamb\u00e9m \u00e9 o meio de gerar controv\u00e9rsias\u201d. Essa revela\u00e7\u00e3o despertou o interesse do pesquisador, que come\u00e7ou a indagar as pr\u00e1ticas das empresas em propagar a confus\u00e3o sobre a constata\u00e7\u00e3o de que fumar causava c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>O financiamento de especialistas por parte das empresas n\u00e3o visa sistematicamente obter \u201cmaus resultados cient\u00edficos\u201d. Ao contr\u00e1rio, pode ser muito \u00fatil subvencionar um grande nome da pesquisa toxicol\u00f3gica para dar cr\u00e9dito a um instituto privado que, depois, ser\u00e1 bem-vindo nos cen\u00e1culos onde se esbo\u00e7a o futuro da pesquisa. N\u00e3o se trata apenas de aliciar alguns especialistas; \u00e9 a pr\u00f3pria estrutura da burocracia da pesquisa que constitui, hoje, uma aposta para os representantes de interesses econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor conclui que existem v\u00e1rias causas para a produ\u00e7\u00e3o deliberada da ignor\u00e2ncia. Pode-se citar, por exemplo, a influ\u00eancia da m\u00eddia n\u00e3o envolvida com as quest\u00f5es reais de informa\u00e7\u00e3o, tanto para negligenciar como tamb\u00e9m para manipular e gerar uma falsa representa\u00e7\u00e3o de fatos. Vale lembrar que corpora\u00e7\u00f5es e ag\u00eancias governamentais podem contribuir para a agnotologia atrav\u00e9s do ocultamento da informa\u00e7\u00e3o e da censura.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi somente o historiador americano que se dedicou ao tema, diversos estudos, publicados em livros e teses, relatam que essa pol\u00edtica continua sendo utilizada at\u00e9 hoje e \u00e9 aplicada por grandes <em>lobbies<\/em>, corroboradas pelos chamados <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Think_Tank\">Think Tank<\/a>, cuja principal fun\u00e7\u00e3o \u00e9 influenciar a tomada de decis\u00e3o das esferas p\u00fablica e privada, bem como de formuladores de pol\u00edticas no que se refere aos temas que est\u00e3o em pauta. Ou seja, essas pessoas possuem fundamenta\u00e7\u00e3o para contestar pr\u00e1ticas dominantes, sobretudo aquelas que se tornaram obsoletas na sociedade, e assuntos vitais, tais como o aquecimento global, a ci\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o, d\u00edvida p\u00fablica e a necessidade do crescimento econ\u00f4mico a qualquer custo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00eas se interessaram pelo assunto e querem se aprofundar, procurem os temas: obscurantismo, subvers\u00e3o, desinforma\u00e7\u00e3o e propaganda enganosa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-small-font-size wp-block-heading\" id=\"h-fontes\"><strong>Fontes<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">DUNKER, <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/s\/ref=dp_byline_sr_book_1?ie=UTF8&amp;field-author=Christian+Dunker&amp;text=Christian+Dunker&amp;sort=relevancerank&amp;search-alias=stripbooks\">Christian.<\/a> <em>Paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia<\/em>: a escuta entre a psican\u00e1lise e educa\u00e7\u00e3o. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">PROCTOR, Robert N.; SCHIEBINGER, Londa (ed.).<em>Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance.<\/em> 2008.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-mmurad-fgv wp-block-embed-mmurad-fgv\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"R3qlBZjATG\"><a href=\"https:\/\/mmurad.com.br\/blog\/o-que-e-um-think-tank\/\">O que \u00e9 e pra que serve um think tank?<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;O que \u00e9 e pra que serve um think tank?&#8221; &#8212; MMurad FGV\" src=\"https:\/\/mmurad.com.br\/blog\/o-que-e-um-think-tank\/embed\/#?secret=Cg35ec7N4L#?secret=R3qlBZjATG\" data-secret=\"R3qlBZjATG\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 20 anos universidades da Europa e do mundo se dedicam aos estudos de uma nova ci\u00eancia chamada Agnotologia.<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":2875,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"edicoes":[488],"class_list":["post-2843","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-papo-cabeca","edicoes-575-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2843"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2922,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843\/revisions\/2922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2843"},{"taxonomy":"edicoes","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaespirita.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/edicoes?post=2843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}