Por vezes, reclamamos que a vida é injusta conosco, que cobra demais de nós e concluímos que viver é muito difícil. Essa visão nos tira do foco que deveríamos ter em relação ao que esperamos deste milagre que é viver. Quando isso acontece, deixamos o barco chamado vida à deriva, “deixando a vida nos levar”.

Desenvolvemos a falsa concepção de que a vida nos apresenta muitos antagonistas ou críticos, os quais em nada nos ajudam no restabelecimento do verdadeiro propósito de vida. Podemos passar muito tempo achando que tudo está ruim, que o nosso esforço de nada vai adiantar, isso quando não delegamos aos outros a responsabilidade por nossos fracassos e nossas fraquezas. Nessas condições, passamos a ver a vida como um repositório de coisas amargas, de olhares de críticas e condenações, ou de carrascos impiedosos que só exigem de nós.
Tem uma lenda que ilustra muito bem o que estamos refletindo: era uma vez uma aldeia que ficava distante de tudo. No meio do nada. Era tão afastada que a maioria dos habitantes do lugar nunca tinha visto um espelho. Os mais velhos falavam sempre sobre uma casa que ficava distante e era chamada de Casa de Espelhos. Como na aldeia não existiam espelhos, ninguém sabia direito o que poderia ter naquele lugar.
Na aldeia morava um menino alegre que brincava com todo mundo, o qual, de tanto ouvir a história da Casa de Espelhos, decidiu ir até a lá e desvendar o mistério de uma vez. O caminho era longo, e ele andou bastante. Mas o percorreu brincando, admirando a paisagem e cumprimentando quem passava por ele. Dessa forma, o caminho lhe pareceu suave.
Até que ele viu uma casa enorme e muito bonita. Com janelas em toda volta e um jardim fantástico. O garoto achou tudo maravilhoso. Com toda sua alegria e cheio de curiosidade, ele foi andando, na ponta do pé, até uma das janelas.
Ele olhou lá dentro da Casa de Espelhos e viu um monte de meninos sorrindo como ele lhe acenando alegres. E embora não tenha conseguido falar com nenhum deles, voltou para casa feliz, e lá chegando contou sua experiência a todos.
– Fui até a Casa de Espelhos! É um lugar maravilhoso. Uma casa bonita com um jardim fantástico. Dentro da casa vivem muitos meninos felizes. É um paraíso!
Todos ficaram encantados.
Só teve um menino que não gostou. Esse garoto estava sempre de mau humor. Não brincava, não sorria e brigava com todo mundo. O menino zangado não acreditou no outro e disse:
– Duvido que seja assim! Só vendo para crer!
E o zangado foi, com todo seu mau humor, até a Casa de Espelhos. O caminho era comprido, e ele foi brigando com todo mundo que encontrava, resmungando e reclamando o tempo todo. Dessa forma, o caminho que era comprido ficou mais comprido ainda. Quando chegou exausto ao lugar, ele viu a grande casa e resmungou:
– A casa nem é tão bonita assim. E esse monte de janelas? Deve dar um trabalhão para limpar.
Com todo esse mau humor, o zangado foi, na ponta do pé, e olhou para dentro da casa por uma das janelas. Lá dentro ele viu um monte de meninos com cara de poucos amigos. O menino zangado não gostou e fez uma careta para eles. E todos os meninos fizeram caretas também. Eram tantas as caretas que o garoto saiu correndo assustado. Ao chegar a sua aldeia, foi logo reclamando com o outro:
– Mentiroso! Naquela casa só tem gente feia e que faz careta! Não gostei mesmo!
Um velho sábio que ouviu o relato dos dois meninos disse com toda a sua experiência:
– A Casa de Espelhos é como a vida, que olha pra gente do jeito que a gente olha pra ela.
Essa historinha simples, que costumamos contar às crianças nas aulas de Evangelização, nos mostra, de forma lúdica, que a vida é nossa construção diária por meio dos nossos pensamentos e atitudes, portanto, ela será resultado da nossa própria obra. Ela nos retribuirá com os mesmos materiais que empregamos na sua obra, refletindo o que realmente somos na essência.