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Quando o palco virou altar – a lição de fé e impermanência no show de Gilberto Gil

No último dia 27/04, em um momento único do show Tempo Rei em São Paulo, após cantar Se eu quiser falar com Deus, Gilberto Gil parecia travar um diálogo direto com o Criador, como se o palco virasse altar, e a música, prece. Então, pelos alto-falantes, ecoou o chamado que arrancou suspiros: “Vem pra cá, Pretinha!” Apoiada pela irmã Nara e pela cunhada, com passos lentos, mas seguros, Preta Gil subiu ao palco como um raio de luz frágil e indomável, comovendo o estádio inteiro ao sentar-se ao lado do pai. Juntos, entoaram Drão – canção composta por Gil para Sandra Gadelha, mãe de Preta, que também assistia, emocionada, na plateia.

Mais de 40 mil pessoas, surpreendidas pela cena, renderam-se às lágrimas. Ali, diante daquele palco, testemunhavam uma aula viva sobre amor e impermanência. Quem tem filhos, certamente, viu-se projetado no coração de Gil – homem de 82 anos cujas lágrimas escorriam como um rio a levar dor e gratidão misturadas. Nenhuma análise seria capaz de decifrar o turbilhão em sua alma naquele instante.

Para quem não é pai ou mãe, a cena foi um soco no peito: uma filha lutando contra um câncer há dois anos, abraçando o pai como quem segura a vida com as duas mãos. Preta revelou depois que aquele momento foi “uma injeção de vida” e nos deu a todos uma lição brutal sobre o agora.

O tema do show, Tempo Rei, reinou de fato: fez 40 mil corações pararem para respirar fundo e perguntar: O que realmente importa? Como escreveu Chico Xavier em Lições de sabedoria: “Os Espíritos ainda não encontraram uma palavra para a dor de pais que perdem um filho”. Nem as composições mais geniais de Gil traduziriam essa angústia. Naquele palco, porém, ele viveu a pré-saudade – o medo e a fé entrelaçados, enquanto abraçava a filha de 50 anos que luta para continuar vivendo.

Quando Chico Buarque, em vídeo projetado naquele mesmo palco, disse a Gilberto Gil “Sempre te admirei pela serenidade”, a plateia mal podia imaginar o peso daquelas palavras. Serenidade… Como definir essa virtude diante da única dor que desafia qualquer lógica humana: a de sepultar um filho? Gil conhecia bem esse abismo. Em 1990, Pedro, com então 19 anos, partira num acidente de carro, deixando-lhe não apenas saudades, mas uma pergunta que deve ecoar ainda por décadas: “Por quê?” Agora, 35 anos depois, ali estava ele, segurando a mão de Preta, enquanto ela luta para se manter em pé. A mesma serenidade admirada por Chico era, agora, posta à prova novamente, não como teoria, mas como testemunho.

No capítulo “Bem-aventurados os aflitos” (O Evangelho segundo o Espiritismo), o Espírito Sanson consola: a morte prematura é uma ferida que nunca cicatriza, mas e se for um resgate? E se Deus, ao levar Preta um dia, estiver poupando-a de dores maiores? A morte nunca é acidental. Ela é assinatura divina em letras que só leremos depois. Quantos “futuros brilhantes” não viraram histórias de vício ou solidão? Talvez a partida seja um “Vem para casa, filha. Aqui, nada te machucará”.

Nossa dor é legítima, mas não única. Eles, do outro lado, veem o que nós não alcançamos: o perfume inexplicável, o toque em sonhos, a física espiritual do amor que não morre. Os que ficam – as pessoas idosas “esquecidas”, os doentes persistentes – são escultores de almas. Deus os mantém aqui para talhar resiliência no mármore de nossa fragilidade. O desafio? Trocar “Por quê?” por “O que essa dor me ensina?” A morte não é roubo. É promessa de reencontro, um fio de amor esticado entre dimensões.

“Quem poderá fazer aquele amor morrer/Se o amor é como um grão/Morre, nasce, trigo/Vive, morre, pão”. Quando Gil e Preta entoaram esses versos de Drão, não estavam apenas cantando, estavam demonstrando a lei da reencarnação em forma de poesia. A canção, com seu ciclo de transformação (grão → trigo → pão), ecoava a mesma verdade que Kardec ensinou: “Nascer, renascer e progredir tal é lei”. E no Allianz Parque, aquela melodia virou espelho para todos nós.

Assim como o grão precisa morrer para se tornar pão, nossas dores são sementes de renascimento. Gil e Preta, ao dividirem o palco diante da doença, provaram isso na prática. Transformaram o medo em melodia, mas não por negação, e sim por fé, tal qual o trigo que aceita seu fim no moinho para alimentar o futuro. E a plateia, ao chorar e aplaudir, compreendeu: o amor nunca morre; apenas se transfigura, como o grão da canção.

Por isso, o palco não foi só um local de música. Tornou-se altar – altar onde se celebrou a vida exatamente porque ela é efêmera (como o grão), e o amor exatamente porque é eterno (como o pão que sacia gerações). Cada Drão cantado era um lembrete: a morte é passagem, e não fim; o sofrimento é forja, e não destino. E quando 40 mil vozes calaram para ouvir aquele pai e aquela filha, todos sentiram – nas fibras da alma – a lei maior: “Amar sempre, renascer sempre”. Como o grão. Como o Espírito. Como a vida que insiste.

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