SANDRA MARINHO ♦

Ultimamente, tenho ouvido com frequência, nos círculos de amigos e da família, a frase “confia no processo”. Resolvi trazer essa questão para refletirmos neste início de ano, justamente quando decidimos dar início a novos projetos e, também, voltar a atenção à gama de outros já iniciados.
Acredito que você concordará que, muitas vezes, não prestamos atenção ao processo. Queremos logo ver o resultado e, não raro, interferimos para acelerá-lo. Dessa forma, é comum desanimarmos no meio do caminho e abandonarmos tudo. E, pior ainda, colocamos a culpa exatamente no processo, isentando-nos da responsabilidade.
Pense se Jesus houvesse acelerado os acontecimentos ou desanimado no meio do caminho, diante de tantos obstáculos. Imagine se Kardec começasse a questionar aleatoriamente as manifestações espíritas, sem ter aplicado o método científico, baseado na observação atenciosa, minuciosa e paciente, bem como nos registros criteriosos que lhe tomavam todo o tempo. Não teríamos a Codificação da Doutrina Espírita. Ela acabaria sendo adiada, não obstante o empenho de toda a plêiade de Espíritos superiores designados por Jesus para tão nobre trabalho.
“Confiar no processo” significa ter paciência e fé na jornada, acreditando que cada passo, por menor e mais difícil que seja, contribui para o desenvolvimento e o alcance dos objetivos, mesmo que não tenhamos controle total ou certeza quanto ao futuro. Exige foco na constância, no aprendizado e na resiliência, em vez de se fixar apenas no resultado final. É um convite para soltar o controle, respirar e seguir construindo dia após dia, desenvolvendo a força interior e o autoconhecimento.
Na prática, significa aceitar a imperfeição, reconhecendo que a vida é dinâmica e cheia de imprevistos. Por essa razão, é infrutífero querer controlar cada detalhe. É desenvolver paciência, entendendo que o progresso pode ser lento e silencioso, mas está acontecendo.
“‘Confiar no processo’ significa ter paciência e fé na jornada, acreditando que cada passo, por menor e mais difícil que seja, contribui para o desenvolvimento e o alcance dos objetivos, mesmo que não tenhamos controle total ou certeza do futuro.”
Para auxiliar nossa reflexão, há a historinha de Ana, que odiava a sensação de não saber o que estava ocorrendo. Ela queria respostas rápidas, sinais claros, garantias. Sempre que algo não dava certo de imediato, concluía que havia falhado.
Um dia, decidiu plantar uma árvore no quintal. Leu sobre o tempo certo, o tipo de terra, a quantidade de água. Fez tudo com cuidado. Nos primeiros dias, nada aconteceu. A terra continuava igual, silenciosa. Ana pensou em desistir, “talvez a semente estivesse morta”, mas algo a fez continuar regando.
As semanas passaram. Algumas noites foram de dúvida: “Será que estou perdendo tempo?” Em outras, ela pensava em revolver a terra com a enxada, para verificar se algo estava crescendo. Resistiu e decidiu confiar no processo que não podia ver. Até que, numa manhã comum, um pequeno broto rompeu o solo. Não foi um momento grandioso. Não houve aplausos. Apenas um sinal discreto de que o trabalho invisível estava acontecendo o tempo todo. Com o passar do tempo, Ana percebeu que muitas áreas da vida funcionavam assim: relações, aprendizados, mudanças internas. Nem tudo dá sinais imediatos. Nem todo esforço se revela rapidamente, e isso não significa que nada esteja acontecendo.
Confiar no processo não significa passividade. É continuar regando, mesmo quando a terra parece quieta. É compreender que o crescimento real acontece, muitas vezes, fora do alcance dos olhos. E, quase sempre, quando finalmente aparece, já estava em construção há muito tempo.
Confiar no processo tem um forte poder sobre a nossa formação enquanto seres em evolução. Permite-nos compreender que não temos todas as respostas nem conhecemos todos os próximos passos, mas nos dá disposição para continuar. Ajuda, também, a manter a motivação e a não paralisar diante do medo ou da incerteza. Fortalece-nos, pois revela nossa própria força, resiliência e autenticidade.
Enfim, confiar no processo é um ato de coragem e fé em si mesmo e na jornada, reconhecendo que o caminho, com suas dificuldades e aprendizados, é tão valioso quanto o objetivo final.