WALTER GRACIANO JÚNIOR ♦
Ao longo dos anos como professor e evangelizador infantojuvenil, tive a oportunidade de conviver com muitas crianças e jovens, ouvindo histórias, observando comportamentos e acompanhando de perto seus desafios emocionais. Na sala de aula e nos encontros de Evangelização, perceberam algumas dores silenciosas surgem de situações que, para os adultos, parecem brincadeiras simples, mas que, para quem as vivências, tornam-se experiências marcantes.

Muitas vezes, ouvimos frases como “foi só uma brincadeira”, “não foi por mal” ou “é só para rir”. Porém, nem sempre quem recebe essa “brincadeira” sente alegria. O cérebro da criança e do jovem ainda está em desenvolvimento e não compreende ironia, intenção ou contexto social como o adulto. Ele simplesmente sente.
Quando alguém assusta, ridiculariza, expõe ou constrange outra pessoa “de brincadeira”, o corpo entra em estado de alerta, como se estivesse em perigo. O coração acelera, a mente se fecha e a emoção registra aquela vivência como algo real, mesmo que, depois, todos riam.
Com o tempo, quando essas situações se repetem, podem deixar marcas invisíveis: medo constante, ansiedade, vergonha de si mesmo, dificuldade de se expressar, baixa autoestima, naturalização do desrespeito e um estado permanente de alerta emocional. O adulto pode achar engraçado, mas o Espírito em aprendizado guarda aquela dor.

“Quando alguém sofre, já não é mais brincadeira.”
O Espiritismo nos ajuda a compreender que somos Espíritos imortais, vivendo uma experiência no corpo físico para aprender, crescer e evoluir. O corpo é temporário, mas as emoções e os aprendizados ficam registrados no Espírito. Por isso, experiências de humilhação, medo e desrespeito não desaparecem com facilidade. Elas influenciam nossas reações, nossos relacionamentos e a forma como nos percebemos. Muitas dificuldades emocionais da vida adulta têm raízes nas vivências da infância e da juventude. Não se trata de castigo, mas de consequência do que foi sentido e aprendido.
Jesus foi muito claro ao ensinar o cuidado com os pequenos e os mais frágeis. Ele valorizava aqueles que estavam aprendendo e necessitavam de acolhimento. Isso nos mostra que respeitar as emoções é um ato de amor, proteger o outro é um gesto de caridade, e não ferir é tão importante quanto ajudar. No Espiritismo, aprendemos que a verdadeira caridade começa nas pequenas atitudes do dia a dia, inclusive na forma como brincamos.
Antes de fazer uma piada, assustar ou “zoar” alguém, vale refletir: isso vai aproximar ou machucar? Vai gerar alegria ou vergonha? Estou sendo amigo ou apenas querendo rir? Brincadeira saudável é aquela em que todos se sentem bem. Quando alguém sofre, já não é mais brincadeira. O que se repete na infância e na juventude tende a transformar-se em padrão emocional na vida adulta. Mas, quando há respeito, acolhimento e amor, o Espírito cresce mais seguro, confiante e equilibrado. E isso é evolução.
Em resumo, as emoções são reais, mesmo quando chamamos algo de “brincadeira”. O Espírito registra as experiências como aprendizado. O respeito cura, e o amor educa. Que possamos ser instrumentos de paz, não de dor escondida, vivendo, de fato, os ensinamentos de Jesus e aquilo que o Espiritismo nos convida a praticar todos os dias.
“O cérebro pode esquecer, mas o Espírito registra: emoções sentidas na infância moldam o adulto que nos tornamos.”
Você deseja aprofundar-se no assunto? Leia e reflita sobre como pequenas atitudes do cotidiano podem transformar vidas e contribuir para o crescimento emocional e espiritual de crianças e jovens.
Referências
EMMANUEL (Espírito). Caminho, verdade e vida. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB, 2014. (Coleção Fonte Viva, 1).
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EMMANUEL (Espírito). Pão nosso. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB, 2019. (Coleção Fonte Viva, 2).
EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 19. ed. Brasília, DF: FEB, 2013.
QUESADA, Andrea Amaro. Guia de saúde mental para adolescentes – 11 a 14 anos. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2020. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_saude_mental_adolescente_11_14_anos.pdf. Acesso em: 30 jan. 2026.
RIBEIRO, Marcus. Parentalidade sem comparação. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/ribeiromarcus/. Acesso em: 30 jan. 2026.
SURJUS, Luciana Togni de Lima e Silva; MOYSÉS, Maria Aparecida Affonso (org.). Saúde mental infantojuvenil: territórios, políticas e clínicas de resistência Santos: Unifesp https://unifesp.br/campus/san7/images/pdfs/Saude%20Mental%20Infantojuvenil.pdf. Acesso em: 30 jan. 2026.