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Você tem vida antes da morte?

Uma pessoa com os braços pra fora de um carro, aventura
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O homem passa a maior parte do tempo de sua vida querendo ser aceito e amado, independentemente do quanto possa se mostrar seguro com relação a seu viver. Não obstante essa seja a realidade da criatura humana, a impermanência da vida o assusta e oprime. A vida é como uma embarcação que se revela frágil diante do imenso oceano de incertezas e impermanências.

Quando eu era menino, sempre que pedia aos meus pais para ir à praia, papai me aconselhava: “cuidado com o oceano porque o mar não tem cabelo pra você se segurar”. Em sua sabedoria, ele me pedia para não avançar para além da faixa de segurança que era o meu umbigo. A velha pedagogia do meu pai se valia daquela advertência popular: “água no umbigo sinal de perigo”.

Diante dessas incertezas e lançado ao oceano do viver, o homem procura se agarrar em alguma coisa que lhe traga alguma segurança a sua existência. Então, a vida futura surge como “cabelo”, onde o ser humano procura se agarrar durante os momentos dolorosos em que a embarcação do existir parece querer soçobrar.

Leia também: Humildade como forma de alcançar o equilíbrio

Platão e sua visão da vída

A Filosofia se debruça há tantos séculos na inquietante indagação: existe vida depois da morte? Para Platão, essa vida é uma cópia que tem certa parecença com o mundo das ideias de onde tudo se origina. É sobre esse universo de incertezas que as religiões transitam e tecem suas teorias libertárias, revelando um paraíso como recompensa para os bondosos que suportarem as dores humanas, ou prisões infernais para os pecadores.

A ideia da salvação é poderoso marketing para arregimentar fiéis, que diante dessa enigmática e impermanente constatação tentam se agarrar ao fio de “cabelo” que lhes garanta algum sentido à vida. Por mais que o ser humano deseje evidenciar grande força e destemor para enfrentar os ciclos conflituosos na intimidade da sua alma, existem muitas fragilidades, medos e inseguranças. E no iminente naufrágio que cada criatura enfrenta em suas frustrações, muitos terminam por se “afogar” e sucumbir aos vagalhões de angústias que invadem o porão da crença do que é de fato a vida.

Talvez não importe muito o que vem depois da morte se minha vida está preenchida de significados e sentido utilitário agora. O sentido da vida é diretamente proporcional à utilidade que tenho dentro do contexto que vivo e inversamente proporcional a uma vida ociosa. Os homens temem as mudanças, e a morte significa uma metamorfose irreversível.

Religião vem salvar o homem de si mesmo

A religião então chega para anestesiar a dor e salvar o homem de si mesmo, mas salva apenas aqueles que aderem às suas legislações celestes, onde a diversidade não pode ser levada em consideração, pois o religioso não consegue conviver com quem é diferente. Dessa forma, os religiosos interpretam as coisas de Deus conforme o “deus” que eles alimentam dentro de si mesmos. As elaborações feitas pelas religiões quanto ao que vem após o decesso físico remontam aos pensamentos mais egoístas, pois são teorias teológicas excludentes e nada têm do que o homem concebe como celestial.

Com o princípio maniqueísta de que existe sempre um mal para cada bem, chegamos à conclusão de que sem a existência do mal os argumentos teológicos de uma recompensa futura não se sustentam. A vida é tão grandiosa em toda sua dor e todo amor que o homem pode experimentar, mas a fragilidade emocional humana precisa de certezas para se equilibrar. As religiões prestam imensos benefícios ao homem na medida em que manifestam a possibilidade de se viver o “reino dos céus” no amor manifestado ao semelhante.

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Sorrir para Deus

O céu está aqui, e Deus se manifesta por você a cada sorriso seu. É preciso ter vida antes da morte, uma vida consentida e feliz. É preciso abandonar o medo de assumir nossa humanidade e nossas limitações. As teorias potencializadas sobre o inferno e os castigos eternos, ou temporários, são frutos do desejo do homem em ser o deus do próprio homem.

Podemos parafrasear o filósofo inglês Thomas Hobbes, que escreveu a obra Leviatã em 1651, afirmando: “o homem é o lobo do homem”. O homem está mais para demônio do próprio homem. Ele deseja ser o deus do seu semelhante para melhor dominar e se beneficiar de um status que revele superioridade, mas que denota na verdade uma infância espiritual.

Quando não consigo lidar com a dor de viver, me refugio no que transcende, me anestesio, porque ainda não apreendi a realidade de que sou barco a navegar, muitas vezes à deriva. Preciso me dar conta de que o que “possuo” de fato é esse mar, que não tem cabelo onde eu possa me segurar, todavia, preciso navegar, essa é a realidade. Até mesmo os barcos existenciais que não desatracam serão arremessados contra os rochedos pelas ondas da mudança que o tempo promove. As vidas que naufragam morrem na paralisia do medo de se buscar novos mares para navegar.

“Navegar é preciso, viver não é preciso” (Fernando Pessoa). Existe vida antes da morte?

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