Na entrevista, a seguir, o psiquiatra infantojuvenil Marcus Ribeiro (foto) analisa a agressividade infantil sob a ótica científica e espírita.

Folha Espírita – Crianças podem ser más ou apenas imaturas?
Dr. Marcus Ribeiro – Na maioria das situações, o que observamos não é maldade propriamente dita, mas imaturidade emocional e moral. O cérebro infantil, especialmente o córtex pré-frontal – responsável pelo controle de impulsos, empatia e regulação emocional – ainda está em formação. Por isso, comportamentos agressivos, egocentrismo e dificuldade de considerar o sofrimento do outro podem fazer parte do desenvolvimento. No entanto, existe um limiar que precisa de atenção. Quando esses comportamentos são persistentes, intensos e acompanhados de ausência de culpa, podemos estar diante de quadros como o Transtorno Opositor Desafiador (TOD) ou o Transtorno de Conduta. Sob a ótica espírita, a criança é um Espírito imortal em processo de aperfeiçoamento. Traz experiências anteriores, tendências, temperamento, mas também recebe uma nova oportunidade educativa. Tendências difíceis podem surgir, mas não definem o destino moral.

FE – Existe crueldade infantil ou estamos projetando conceitos adultos?
Ribeiro – A crueldade pode existir, mas precisa ser analisada com cuidado. Tecnicamente, envolve três elementos: intenção de causar sofrimento, consciência desse sofrimento e ausência de culpa ou empatia. Na infância, o que vemos com mais frequência é agressividade impulsiva, e não necessariamente crueldade. Porém, agressões deliberadas, repetidas e sem remorso exigem avaliação, pois podem indicar alterações no desenvolvimento moral. Na visão espírita, isso pode refletir tendências profundas do Espírito, mas nunca como condenação, e sim como necessidade de educação e transformação.
FE – Quando a agressividade deixa de ser fase e vira alerta?
Ribeiro – Quando é frequente, intensa e acompanhada de crueldade com animais ou outras crianças; mentiras persistentes com intenção de manipulação; ausência de remorso; destruição deliberada; violação repetida de regras. Se esses padrões interferem na vida social e familiar, é fundamental uma avaliação profissional. Quanto mais precoce a intervenção, melhor o prognóstico.
FE – O prazer em machucar pode surgir ainda na infância?
Ribeiro – É incomum, mas pode ocorrer. Algumas crianças apresentam traços de insensibilidade emocional – baixa empatia, ausência de culpa, frieza afetiva, busca de dominância. Isso não é sentença definitiva, mas um perfil de risco que exige intervenção precoce.
FE – A maldade é aprendida, herdada ou construída?
Ribeiro – A ciência aponta para a interação de três fatores: biológicos (temperamento), experiências familiares e sociais e aprendizagem emocional. Uma criança pode nascer com temperamento difícil. Se associada a ambientes de risco, isso se intensifica. Em ambiente protetivo, pode ser transformado. Sob a ótica espírita, acrescenta-se a bagagem evolutiva do Espírito, mas nada é determinista.
“A criança com comportamento difícil não é um problema a ser eliminado, mas um ser humano em formação que precisa ser compreendido, orientado e educado.”
FE – Qual o peso do ambiente familiar?
Ribeiro – É determinante. A criança aprende moralidade por três vias: modelagem (exemplo), vínculo afetivo e limites consistentes. Ela não aprende por discurso, mas por vivência. Ambientes marcados por violência, negligência ou ausência de afeto aumentam o risco de comportamentos antissociais. No entendimento espírita, a família é espaço de reencontro evolutivo, em que Espíritos se auxiliam mutuamente.
FE – Violência simbólica, negligência e ausência de limites formam adultos violentos?
Ribeiro – Não determinam, mas aumentam o risco. Limite não é agressão; é estrutura moral adequada à idade. Sem limites, a criança tende a desenvolver impulsividade e desrespeito às regras sociais.
FE – Pais amorosos podem criar filhos cruéis?
Ribeiro – Sim. Mesmo em ambientes amorosos, podem existir fatores biológicos, transtornos do neurodesenvolvimento ou experiências externas negativas. É importante não cair na culpabilização automática dos pais. O que os pais oferecem – amor, estrutura, limite – é fundamental. Sem isso, poderia ser muito pior.
FE – A visão espírita admite Espíritos com histórico de violência reencarnando como crianças?
Ribeiro – Sim. A reencarnação é recurso pedagógico. Espíritos que erraram renascem para aprender e reparar. Isso não significa que a criança seja má, mas que pode trazer desafios evolutivos.
FE – Tendências agressivas podem vir de outras existências?
Ribeiro – A Doutrina Espírita admite essa possibilidade. Tendências fazem parte da bagagem evolutiva, mas não são destino. Livre-arbítrio e educação permitem transformação.
FE – Como diferenciar influência espiritual de questões psicológicas?
Ribeiro – Na prática clínica, priorizamos explicações psicológicas, ambientais e neurobiológicas. A dimensão espiritual pode ser considerada, quando há abertura, mas nunca substitui avaliação técnica. No paradigma médico-espírita, buscamos integração, e não substituição.
FE – A educação pode reorientar tendências negativas?
Ribeiro – Esse é o grande objetivo da reencarnação. Educação moral, afeto, limites e experiências positivas ajudam o Espírito a reconstruir padrões. Nenhuma tendência é definitiva.
FE – Estamos preparados para lidar com crianças difíceis sem rotulá-las?
Ribeiro – Ainda não completamente. Oscilamos entre rotular e excluir ou negar o problema. O caminho saudável é reconhecer dificuldades e intervir precocemente.
FE – O excesso de permissividade pode ser tão nocivo quanto a violência?
Ribeiro – Pode, sim. Permissividade extrema gera baixa tolerância à frustração e falta de autocontrole. Desenvolvimento saudável exige amor e limite simultaneamente.
FE – A espiritualidade pode ajudar pais nesse processo?
Ribeiro – Pode oferecer visão de longo prazo, esperança e paciência, mas também precisamos olhar o papel da sociedade: investir em saúde mental infantil, apoiar famílias vulneráveis, e não apenas culpabilizar.
FE – Um Espírito pode ser mal para sempre?
Ribeiro – Não. A Lei do Progresso ensina que todos caminham inevitavelmente para o bem. O mal é temporário.
“Nenhuma tendência é definitiva: educação, afeto e limites são instrumentos reais de transformação.”
FE – Existe ponto sem retorno?
Ribeiro – Não. O que muda é o tempo e a consciência.
FE – O que sustenta a esperança da recuperação moral?
Ribeiro – Educação no sentido amplo, experiência de amor verdadeiro e amadurecimento espiritual.
FE – Amor basta?
Ribeiro – Amor é essencial, mas inclui limite e responsabilização. Limite também é forma de amor.
FE – Uma mensagem final aos pais?
Ribeiro – Não caiam na culpa ou no desespero. A infância é período de formação profunda. Com intervenção precoce, muitas trajetórias podem ser transformadas. A criança com comportamento difícil não é um problema a ser eliminado, mas um ser humano em formação que precisa ser compreendido, orientado e educado. Nenhum ser está condenado ao erro. A infância é o momento mais poderoso para redirecionar o futuro.