17 de abril de 2026

Selectores genéricos
Coincidencia exacta
Buscar en el título
Buscar en el contenido
Selectores de tipo de entrada
Buscar en Ediciones
Buscar en ediciones antiguas
Buscar en Noticias y Podcasts

17/04/2026

Selectores genéricos
Coincidencia exacta
Buscar en el título
Buscar en el contenido
Selectores de tipo de entrada
Buscar en Ediciones
Buscar en ediciones antiguas
Buscar en Noticias y Podcasts

Narrativa empolgante e exclusiva dos irmãos Villas-Bôas: os índios conversam com os Espíritos

Vivendo nas selvas, nossos heróis do Sertão contam detalhes da vida dos índios e de suas relações com o “sobrenatural”.

Texto de Marlene R. Severino Nobre

Fizemos uma reunião em família: os irmãos Villas-Bôas, Sulamita Mareines e seu filho Ivo e nós da Hoja de Espíritu para debatermos um assunto tão pouco conhecido ou mal divulgado: religião entre os índios.

Ivo voltara entusiasmado de suas excursões ao Xingu. Sulamita ganha coragem para tomar o avião e partir na mesma direção, a fim de estudar os costumes indígenas em seu hábitat natural. Enquanto não formamos essa importante caravana, recolhemos subsídios importantíssimos, aqui mesmo em São Paulo, nesta entrevista sensacional com Cláudio Villas-Bôas.

Na antessala, nossa conversa transportara-nos à floresta. Já respirávamos o ar puro das matas, víamos os peixes brilhantes, dourados pelos raios de sol, a se debaterem nas mãos exímias dos pescadores nativos, e essa evocação de nossas raízes mais genuínas embalou-nos os pensamentos nas esperanças do porvir. No futuro, quando os desejos de paz assegurarem ao homem progresso crescente e conquistas espirituais definitivas, os governantes dos povos serão homens sábios e bondosos com faculdades mediúnicas amplas, garantindo à coletividade o clima de tranquilidade como todos nós sonhamos.

A história para os meninos do terceiro milênio será contada mais ou menos assim: “Os nossos governantes, meus filhos, são os pajés do século XXI – sacerdotes, pais e mestres…”. E o homem que herdou a terra terá em suas atitudes o ponto de encontro da ciência, da filosofia e da religião, laços indispensáveis com o Reino do Supremo doador da vida!

FE – Cláudio, primeiramente, quero expressar-lhe a nossa grande satisfação por estarmos entrevistando você e o Orlando. Sabe, vocês são pessoas muito respeitadas por todos nós brasileiros. A família Villas-Bôas está ligada àquilo que de mais simples e puro nós possuímos: nossos índios. Bem, acredito que nossos leitores gostariam muito de saber: qual a religião dos índios?

Cláudio – Esse é um assunto realmente muito complexo. É um problema, sobretudo de conceituação: será que o comportamento do índio em relação ao sobrenatural poderíamos conceituar de religião? Faço essa pergunta, inicialmente, para podermos colocar melhor essa questão. Aquilo que nós entendemos por religião não tem correspondência na cultura indígena.

FE – Em linhas gerais, os índios acreditam na sobrevivência? Eles se comunicam com entidades que não possuem mais o corpo físico? E sua crença em Deus?

Cláudio – Os índios têm os seus heróis culturais e toda uma vivência com o sobrenatural que é a pajelança. Eu não classificaria isso de religião. A pajelança é uma prática toda que o pajé ou o feiticeiro deles, como nós classificamos lá, tem para entrar em contato com o sobrenatural. É toda uma técnica que eles sabem e desenvolvem conforme o momento e a necessidade. Agora, religião tem um conceito muito mais amplo, já significa adoração, ligação dos vivos com algo superior, por exemplo, com o Criador, com o ser que criou o mundo. O índio não acredita em um ser criador, tem os seus heróis culturais.

FE – Cláudio, como é escolhido um pajé?

Cláudio – Os pajés sempre surgem quando tem uma tendência para isso. Para se compreender melhor, é preciso dizer que há uma variedade muito grande de Espíritos, ou de categorias de Espíritos, entre os índios: há aqueles que residem no fundo das águas, outros que moram nas matas. Quando o índio está caçando ou pescando, ele pode, às vezes, ser atingido por essas entidades sobrenaturais. Quando atingido, ele fica ligado àquele determinado Espírito; ele volta, então, à aldeia assim, perturbado, e os parentes solicitam o pajé que já teve a mesma origem.

O xamã ou pajé vem saber o que aconteceu. O índio conta, em estado de inconsciência quase – não sei se fingida, mas acontece entre os índios –, que foi “pego” pelo Jacuí – Jacuí apareceu – ou ele ouviu a flauta do Jacuí. O pajé passa então a iniciar esse índio atingido por essa influência sobrenatural para fazer dele um pajé ligado a essa categoria de Espírito que é o Jacuí.

FE – O Jacuí seria o Espírito da floresta?

Cláudio – Não, é o Espírito do fundo das águas.

FE – Atualmente, quem é o pajé maior lá no Alto Xingu?

Cláudio – Há vários pajés, e como tal, todos ocupam uma posição dentro do grupo não só de ordem religiosa como também socioeconômica.

FE – No caso do Tacumã, o senhor se lembra de alguma particularidade a respeito de como ele se tornou um pajé?

Cláudio – Conheço toda a história até ele se tornar um grande pajé. Tacumã estava pescando no Rio Coluene e depois chegou na aldeia com muita febre. Os parentes foram pedir recursos lá no posto, pensavam que ele estivesse com malária… Quando chegamos para averiguar o que se passava, os pajés já estavam em torno dele, e eles disseram: “O que ele tem não é doença que vocês podem curar… Não é doença de civilizado. Ele foi pego pelo Jacuí, então nós é que sabemos curar o Tacumã”.

Começaram a pajelança e, realmente, o índio sarou, voltou à situação normal. Depois disso, ele passou a ter algumas perturbações muito estranhas; saía para o mato correndo, entrava na aldeia, subia nas casas, rolava escada abaixo, tomado pelo Espírito. Esta influência ficou até que ele conseguiu dominar aquela categoria de Espírito, quando o aceitaram como uma pessoa viva que representa essa entidade espiritual.

É muito complexo esse problema da pajelança entre os índios do Xingu. Nós estamos, eu e o Orlando, fazendo um trabalho nesse sentido para explicar com detalhes o que realmente ocorre nessas situações. Isso não é fácil de explicar, assim, em poucas linhas. Ainda mais para mim, que tenho dificuldades de expressão.

FE – Não é o que estamos ouvindo, o senhor se exprime muito bem.

Sulamita – O senhor acredita que houve uma influência espiritual, uma inteligência de outra dimensão, atuando sobre o Tacumã?

Cláudio – Sabe, hoje existe uma confusão muito grande com relação a essas coisas, mas, desde muito tempo, acreditamos em algo que transcende à nossa vida. A própria ciência estuda os fenômenos parapsicológicos e, hoje, ninguém duvida de fatores não físicos atuando sobre nós.

Sulamita – O senhor não duvida?

Cláudio – Não duvido.

Sulamita – Parabéns!

Cláudio – Quem pode, por exemplo, negar que a pajelança esteja ligada, assim, a algo que está fora daquilo que se pode testar!

Sulamita – Que abertura! Meus parabéns! Agora o senhor poderia contar com detalhes como foi a história das duas crianças que o Tacumã achou na floresta?

Cláudio – Exato. Isso aconteceu na aldeia dos Kalapalos. O pai saiu para pescar, levando dois filhos, e a uma certa altura do dia ele deixou as crianças à beira da lagoa Marivarré, uma lagoa que tem perto do nosso posto, que é a sede do Parque. Quando voltou, as crianças não estavam mais lá. Procurou por toda a parte e depois voltou para a aldeia, pedindo ajuda. Todos auxiliaram na busca, mas foi em vão… No outro dia, um pajé dos Kalapalos disse que um Espírito, o Evurá, tinha levado as crianças. O pajé não conseguiu fazer a pajelança toda e as crianças não voltaram.

Procuraram então outros pajés de outras tribos – Kuicuri, Meinaco, Arueiti – todos se concentraram lá na aldeia dos Kapalos, mas foi inútil. Foi aí que alguém se lembrou de Tacumã. A esse tempo, ele já era chefe da aldeia, mas não era respeitado como um grande pajé. Estavam esperançosos, porque Tacumã era filho de um pajé que se tornara famoso e talvez pudesse descobrir as crianças perdidas há cinco dias. Tacumã veio com um grupo de pajés auxiliares e fez toda a pajelança, cantando e realizando a atração. Quando terminou, disse que as crianças iriam aparecer às 10 horas do dia seguinte, que Evurá, um Espírito, tinha levado os meninos, mas que ele conversara com ele, e eles já estavam de volta.

Notável, às 10 horas ouve um grito na mata, e as crianças apareceram na orla do cerrado. Eu estava lá! Não posso duvidar porque assistimos tudo isso. Quando as crianças apareceram, os parentes correram para pegar, mas Tacumã gritava: “Não vai, senão ela vai e não volta mais…” Mas os parentes correram para pegá-las, e as crianças entraram de novo no mato e sumiram. Tacumã fez outro trabalho com muita pajelança, muita fumaça com aquele cigarro de quase 3 cm de comprimento, imenso. Fumou um atrás do outro, entrou em transe e falou: “Amanhã ele volta outra vez, mas amanhã ninguém vai até lá, eu vou pra pegar as crianças”. Isso é real, pergunte ao Orlando, nós assistimos.

Às 10 horas, houve grito das crianças na orla do mato, e elas apareceram. Então, Tacumã, com aquele chocalho na mão, foi cantando rumo às crianças e auxiliado por outro pajé levou-as pelo braço até a casa dos pais. Eram duas meninas, uma de 9 e outra de 6 anos.

Ivo – Acho que não havia possibilidade nem de alimentação dessas crianças.

Cláudio – Eu resumi muito, elas passaram vinte dias no mato.

Ivo – E voltaram intactas?

Cláudio – pegamos um avião nosso, desses pequenos, e levamos as crianças para o posto. Elas entraram no soro, estavam só pele sobre osso.

FE – O senhor poderia dizer alguma coisa sobre o cerimonial fúnebre que os índios realizam?

Cláudio – O Guarup é o cerimonial fúnebre. Está dentro da dimensão religiosa. O índio acredita que a pessoa morta tem um outro destino, fora da realidade onde nós estamos. Eles realizam essa cerimônia para libertar o morto, para expulsá-lo dali, porque eles creem que o “ian” – a alma dele – fica ali em volta dos parentes porque eles têm saudade, mas todos devem se desapegar. O cerimonial é feito com exorcismos; é uma solução de ordem coletiva para que não haja o problema da saudade. Após o Guarup, os parentes do morto são lavados, pintados, para que se esqueçam do morto, então, o viúvo pode se casar, o filho não precisa se lembrar do pai, e a esposa, do marido, e assim por diante.

FE – Os índios colocam alguma coisa nos túmulos?

Cláudio – Preciso explicar que a alma – para o índio – tem que atravessar um caminho muito longo e difícil antes de chegar ao Uivat – o céu –, onde existe uma aldeia parecida com a daqui da Terra. Nessa aldeia, ele vai viver plenamente. Os índios colocam no túmulo arco, flechas, tacape, para que o morto possa atravessar aquela região difícil, onde existe gaviões enormes que podem destruí-lo. É preciso vencer esse caminho difícil para alcançar a aldeia da felicidade, o céu.

FE – Que coisa maravilhosa! A fé pura dos simples!

Cláudio – Realmente, há detalhes de uma beleza muito grande. Em nosso livro Xingu, os índios e seus mitos, nós analisamos tudo isso. Há etnólogos, por exemplo, que somam religião e magia como uma coisa só, mas para nós são duas coisas completamente diferentes. Magia é técnica, é uma maneira de entrar em contato com o sobrenatural; religião é pura adoração, é compreensão do sobrenatural; é algo estático.

Sulamita – Como as escolas aqui no Brasil deturpam tanto a religião do índio, ensinam, por exemplo, que eles adoram o Sol, a Lua etc. quando não é nada disso

Cláudio – A religião é sempre passada de pai para filho. Religião é uma estrutura metafísica. Todo índio sabe que ele tem um destino, a alma dele vai ficar num determinado plano. Esse conhecimento não exige nenhuma técnica, não há nenhuma dinâmica. Isto já não acontece com a pajelança.

FE – A pajelança é uma técnica?

Cláudio – É um poder que têm os vivos de entrar em contato com as entidades.

FE – Para cada caso tem um tipo de pajelança?

Cláudio – Claro, cada caso está ligado a uma categoria de Espírito. O pajé nunca abrange todas as entidades espirituais. Há pajés do Jacuí, os do Anhangú, outros do Aratí, cada um é dono de uma certa faixa de Espíritos.

Sulamita – E eles fazem cura através desse relacionamento?

Cláudio – Fazem. E até hoje quando ocorre alguma coisa com qualquer um deles, a gente vai lá com nosso jipezinho. Vamos até a aldeia. Muitas vezes, eles falam: “Não, Cláudio, essa não é ‘torrun-tor-run”, isso não é doença de caraíba, isso só nós é que sabe. Espera, nós vai curar ele, ele fica bom, não precisa de remédio”.

FE – E fica?

Cláudio – Fica.

Ivo – Quando de minha visita ao Xingu, aprendi muita coisa sobre o índio e gostaria que o senhor confirmasse. É verdade que não há punição para o índio quando este comete um erro?

Cláudio – Para respondermos, é preciso lembrarmos que na civilização indígena não existe um chefe geral que determine, por exemplo, serviço, trabalho etc. O índio é organizado em famílias, e cada família é independente uma da outra. O chefe – morere-quê na língua camaiurá – é o dono do pátio da aldeia; a ele compete apenas promover as ocorrências nesse pátio, onde se desenrola a vida social dos índios. Nunca se trata de uma posição de mando para determinar esta ou aquela atividade. Não, ele só tem que responder pela sua família. Mas qualquer cerimônia no pátio ele deverá presidir.

Quando a aldeia recebe visita de outra tribo para alguma festa, por exemplo, é o chefe que tem de receber os vizinhos amigos. Então, nesse caso, ele realmente representa o chefe, assume essa posição. Ele não tem autoridade para corrigir qualquer distorção. Falamos, assim, porque não há crime entre os índios. Um índio, por exemplo, rouba uma coisa de outro – uma flecha, um arco, um enfeite – os outros levam na gozação, não há ninguém para dizer “você errou, você é feio”. Não, eles não desvalorizam nem menosprezam as pessoas, nem as colocam em situação marginalizada por qualquer ocorrência dessas.

FE – Não há crimes entre eles?

Cláudio – Não. Há apenas uma punição de ordem mágica, quando eles concluem que o feiticeiro foi o causador da morte de algum índio. Nesse caso, ele é considerado por todo o grupo como elemento perigoso, e então eles o eliminam, eles o matam.

Sulamita – Eles concluem que o índio foi morto por feitiçaria…

Cláudio – Por feitiçaria, mas é rara também essa punição.

FE – Penso que no futuro, voltaremos a aproveitar todas as experiências primitivas, adaptando-as ao grau de intelectualidade adquirido. Depois do ano 2000, esperamos ser governados por criaturas espiritualizadas que serão assim como os pajés, terão ascendência moral sobre nós, trazendo ainda toda a possibilidade de intercâmbio com o mundo espiritual…

Cláudio – Eu acho que o primitivo tem muito para ensinar para nós civilizados. Nós distorcemos tanto a nossa vida; como, por exemplo, as complicações de ordem econômica. Temos tanta filosofia complexa. O índio tem algo assim de puro… Quando leio Sartre ou Heidegger, filósofos tão difíceis, a gente descobre, principalmente em Heidegger, no Fundamento do ser, muita coisa sobre a essência da verdade. Quanta profundidade há naquilo! Não há nada daquele aumento do nosso conhecimento através da tecnologia. A gente pode ver no índio o conteúdo dessas posições absolutas dentro da própria filosofia.

FE – Gostaria que o senhor concluísse, explicando qual a conotação com o índio?

Cláudio – O índio é espontâneo, todo comportamento dele é de uma certa maneira puro. O índio é autêntico; ele não ambiciona nada. É um homem perante a vida. Há um relacionamento extraordinário do índio com a ética do Krishnamurti.

FE – Com Krishnamurti?

Cláudio – Sim, justamente pela espontaneidade. O índio não teme a morte. Os vivos é quem tem o problema da saudade e tem que afastar a lembrança do morto, mas a pessoa que está para morrer não teme a morte.

FE – Interessante, os índios vivem segundo a assertiva de Nosso Senhor Jesus Cristo: “A cada dia basta o seu mal”.

Cláudio – O índio bastante velho é alegre; quanto mais idade, mais alegre ele é. Ele não está pensando: “Amanhã, eu estarei morto”. Não, o índio quanto mais velho, mais alegre ele é. Ele é assistido pelos outros, tem todo o respeito de sua aldeia. Não gostei do livro Velhice, essa realidade incomoda, de Simone de Beauvois; em qualquer continente, pode ela ter encontrado um lugar onde o velho é desprezado, mas aqui no Brasil, pelo menos, não podemos dizer que o velho é desprezado pela nossa gente.

FE – Que outro fenômeno o senhor constatou no contato com os índios?

Cláudio – Inúmeros. Um deles ocorreu quando nós estávamos chegando, em 1945, na aldeia dos Kalapalos. Cinco duas depois, os índios Aurás vieram também. Os Kalapalos ficaram surpresos porque não estavam esperando a visita. Os Aurás explicaram então que foram avisados de que estavam chegando civilizados na aldeia dos Kalapalos.

FE – Que interessante! Quer dizer que a missão de vocês já estava sendo anunciada pelos Espíritos aos índios!

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

¡Aproveche esta oferta!

Conozca las producciones de Editora FE

Assinatura Open Sites