CLÁUDIA SANTOS ♦

Em um tempo marcado pelo excesso de informação, telas onipresentes e relações cada vez mais ruidosas, uma pergunta simples – e profundamente desconcertante – atravessa pais, educadores e profissionais da saúde: quando conversamos com nossos filhos, nós realmente os enxergamos?
É a partir dessa provocação que o psicanalista e autor espírita Adeilson Salles (foto) construiu o livro Filhos: falar ou conversar? Psicanálise e espiritualidade na prática educativa , recém-lançado pela FE Editora. A obra nasce da clínica, da vivência como pai e avô e do diálogo consistente entre Psicanálise e Espiritismo, sem discurso abstrato ou fórmulas prontas.

Para Adeilson, educar não é despejar conteúdos, mas criar um espaço onde o outro possa existir como sujeito – emocional, psíquico e espiritualmente. Nesta entrevista à Hoja de Espíritu, ele fala sobre pertencimento, escuta, silêncio, adolescência, mediunidade, tecnologia, limites e o impacto profundo das relações familiares na construção do ser.
FE – Quando falamos com os nossos filhos, nós realmente os enxergamos? O que essa pergunta revelou na sua prática?
AS – Essa pergunta me acompanha há muitos anos, não só como psicanalista, mas como pai aprendiz. O que eu percebo é que a educação, muitas vezes, acontece de forma automática. Pais acreditam que têm alguém em casa para quem precisam apenas transmitir conteúdos, valores e normas, de maneira unidirecional.
Na clínica, vejo com frequência pessoas que foram feridas emocionalmente pelos próprios pais e que, sem perceber, acabam reproduzindo esse padrão com os filhos. Falta enxergar que há um interlocutor do outro lado, alguém que precisa sentir pertencimento. Educar não é falar para o filho, é conversar com ele.
FE – Em que momento você percebeu que os adultos falam, mas não conversam com os filhos?
AS – Na minha própria experiência como pai. Durante muito tempo, a educação que ofereci foi baseada na ideia de que eu sabia tudo, que eu tinha sempre razão. Isso gera pouco pertencimento. Hoje, quando faço palestras, muitas pessoas dizem: “Eu precisava ter ouvido isso há 20 anos”. E eu respondo: “há 20 anos eu estava errando para poder aprender o que sei hoje. Ser pai e mãe é um aprendizado permanente”.

“Falar é despejar conteúdo. Conversar exige vínculo, tempo e disponibilidade emocional.”
FE – O que significa, na prática, enxergar um filho emocional, psíquica e espiritualmente?
AS – Primeiro, compreender que não estamos educando corpos, mas Espíritos imortais, com uma biografia reencarnatória. Essa história espiritual se manifesta desde a infância. Uma criança pode viver em um ambiente harmonioso e, ainda assim, carregar uma tristeza profunda. Nem sempre isso vem apenas do contexto externo; pode estar ligado à própria história da alma. Isso exige um olhar muito mais sensível dos pais.
No livro, dialogo com dois grandes nomes da psicanálise: Françoise Dolto e Donald Winnicott. Dolto afirma que a criança precisa ser vista como sujeito desde o nascimento. Mesmo quando ainda não fala, ela sente – e sente profundamente. A energia do amor, da voz, do cuidado, é inconfundível. Já Winnicott nos ensina algo fundamental: o colo é o primeiro ambiente psíquico saudável. E ele não precisa ser perfeito, apenas suficientemente bom.
FE – Qual é, afinal, a diferença entre falar e conversar na educação?
AS – A diferença é abismal. Falar é despejar conteúdos. Conversar é dar ao outro o direito de pertencer à relação. Pais que só falam não conhecem os filhos que têm. Quando uma criança expressa sentimentos e isso é desconsiderado, constrói-se uma relação de distância. Mais tarde, esses filhos não se sentem seguros para procurar os pais. A escuta – ou a ausência dela – molda toda a estrutura emocional.
“Autoridade sem afeto vira autoritarismo; afeto sem limite vira abandono.”
FE – O silêncio também educa? Quando ele cura e quando machuca?
AS – O silêncio pode ser respeito ou indiferença. Precisamos aprender a ouvir os silêncios dos nossos filhos. Gestos que se repetem, isolamento excessivo, mudanças de comportamento – tudo isso comunica. Muitos pais confundem autoridade com autoritarismo. O amor tem autoridade. O autoritarismo grita, compara, humilha. Às vezes, respeitar o silêncio é o caminho para uma aproximação verdadeira.
FE – Como a psicanálise dialoga com a visão espírita da infância e do desenvolvimento?
AS – Não dá para dissociar o emocional do espiritual. Onde há sofrimento emocional, há também uma dimensão espiritual envolvida, e vice-versa. A Psicanálise ajuda a espiritualidade a sair do discurso abstrato. Costumo brincar dizendo que o que Freud não explica, Kardec explica. Freud nos trouxe uma leitura genial do aparelho psíquico, mas o Espiritismo amplia esse olhar ao considerar a reencarnação e o inconsciente espiritual, conceito que também aparece em Viktor Frankl.
“Muitas vezes, o que chamamos de ‘problema’ é apenas sensibilidade sem acolhimento.”
FE – A adolescência é um ponto crítico nesse processo?
AS – Sem dúvida. A adolescência é um tsunami emocional. A mediunidade não começa aos 21 anos, ela se manifesta antes, muitas vezes de forma intensa. Um adolescente médium, emocionalmente fragilizado, pode potencializar seus conflitos. O meio espírita ainda deve muito à adolescência. Precisamos falar mais sobre isso, com responsabilidade e preparo.
FE – Tecnologia virou um terceiro elemento na relação entre pais e filhos?
AS – Virou quando os pais terceirizam a presença. Celular não educa ninguém sozinho. O problema é a ausência de limites e de convivência. Depois, os pais se surpreendem com a influência de youtubers e redes sociais. Mas alguém ocupou um espaço que estava vazio. Disciplina, presença e convivência não são luxos, são necessidades.

“Nem toda dor da infância é patológica, mas toda dor ignorada deixa marcas.”
FE – Temas como drogas e sexualidade ainda são tratados com medo?
AS – Sim, muito mais com medo do que com escuta. Vivemos em uma sociedade erotizada, com acesso fácil à pornografia. Dar um smartphone a uma criança exige consciência. Toda ausência emocional cria brechas. E essas brechas podem ser preenchidas por conteúdos nocivos, inclusive do ponto de vista espiritual.
FE – Você afirma que “escuta cura”. O que exatamente se cura quando um filho é escutado de verdade?
AS – Não existe uma resposta única, porque cada ser humano é um universo, mas quando alguém pode falar da própria dor e ser verdadeiramente ouvido, algo se organiza internamente. A escuta cria vínculo. E vínculo cura. Isso vale para crianças, adolescentes e também para as pessoas idosas – um grupo frequentemente silenciado. Quem não é ouvido não consegue elaborar a própria história.
FE – Que tipo de adulto precisa nascer hoje para que uma criança possa existir com autenticidade?
AS – Adultos fiéis aos próprios princípios. A pior solidão é a ausência de si mesmo. Quando abandonamos valores essenciais para atender às exigências do mundo, perdemos a capacidade de conexão com o que dá sentido à vida. Pais não são donos do caminho dos filhos. São facilitadores. Quando oferecemos amor, presença e pertencimento, podemos seguir adiante com a consciência tranquila de que fizemos o melhor possível.
“O adolescente não quer ser corrigido o tempo todo. Ele quer ser compreendido primeiro.”