Se perguntarmos a 100 pessoas o que elas desejam da vida, a maioria, provavelmente, vai dizer que quer ser feliz, que quer ter paz, e assim por diante. Então, devemos nos perguntar: como entendemos a felicidade? Como a estamos buscando? Com base em Steven Pinker e nos estudos de Charlotte Fox Weber, aprendemos que a felicidade não é um produto de consumo, mas, sim, uma experiência dual: emocional, ou seja, sentir prazer, e cognitiva, isto é, avaliar a vida positivamente.

A busca incessante pela felicidade pode ser frustrante, pois desejamos, mais profundamente, conexões, propósito e aceitação mais do que euforia constante. Creio que o ponto crucial de nossa atenção deva estar na questão dessa busca incessante, ou seja, onde e como estamos realizando essa busca.
No último dia 20 de março, Dia Internacional da Felicidade, foi apresentado o Relatório Mundial da Felicidade 2026, publicado pelo Centro de Pesquisas de Bem-Estar da Universidade de Oxford. Nessa edição, o relatório centra a análise em um tema muito atual: a interseção entre a felicidade global e o uso das redes sociais. Trata-se de uma reflexão muito importante, porque podemos nos perguntar: quantas pessoas estão procurando os caminhos da felicidade nos algoritmos, que nos seduzem com exemplos e com a promessa de uma receita infalível para ser feliz? E como será que essa relação realmente acontece?
O primeiro ponto que devemos observar é que a percepção de felicidade é diferente entre os países, bem como o uso das redes sociais. Enquanto os países nórdicos, liderados pela Finlândia, continuam dominando o topo do clasificación de felicidade, observa-se uma queda drástica no bem-estar dos jovens em países de língua inglesa, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia – região NANZ –, e na Europa Ocidental. O relatório investiga se o aumento do uso de tecnologias digitais é o principal culpado por essa tendência, revelando que o impacto das redes sociais não é uniforme, mas depende profundamente do design da plataforma e do contexto cultural.
Um dos pontos mais detalhados do relatório é a distinção entre as atividades na Internet que promovem ou prejudicam a satisfação com a vida. Atividades focadas em comunicação, aprendizado e criação de conteúdo estão, geralmente, associadas a níveis mais altos de felicidade. Em contrapartida, o uso intensivo de redes sociais baseadas em algoritmos, jogos e navegação passiva está correlacionado com menor satisfação, especialmente entre meninas e jovens em países de língua inglesa.
O relatório apresenta evidências de que o uso intenso – mais de sete horas por dia – coloca os adolescentes em risco, contribuindo para problemas como privação de sono, depressão e ansiedade. Aqui temos duas informações importantíssimas: não podemos imaginar que o uso, por si só, da tecnologia nos deixe mais infelizes, e sim que isso dependerá do que estamos buscando nas redes. O hábito de “ficar deslizando o dedo para cima”, consumindo conteúdos que despertam uma dopamina imediata, e o fato de o algoritmo ir nos entregando mais e mais daquilo que estamos vendo vão nos hipnotizando, e o resultado, no final, não é uma satisfação permanente, mas apenas microssatisfações momentâneas.
Para nos aproximarmos mais de nossa realidade, o relatório também foca na América Latina e no Brasil, que, aliás, ocupa a 32ª posição no clasificación global de felicidade. Podemos encontrar nesse documento a constatação de que países latino-americanos possuem avaliações de vida significativamente superiores às previstas pelos modelos econômicos tradicionais, o que é atribuído à força das redes de apoio social e à vida familiar na região.
No Brasil e em outros países vizinhos, plataformas que facilitam a conexão social direta, como o WhatsApp e o Facebook, mostram uma associação positiva clara com a felicidade. Essas ferramentas são usadas para fortalecer laços existentes e manter conexões emocionais profundas, funcionando como “bens relacionais”. Por outro lado, plataformas de conteúdo algorítmico, como TikTok e Instagram, tendem a ter associações negativas com o bem-estar, pois incentivam a comparação social e a visualização passiva de vidas idealizadas por influenciadores. Aqui vemos que o uso de redes que apresentam maior proximidade e contato direto nos ajuda a criar bases mais consistentes para o nosso bem-estar e para a nossa felicidade.
Outro ponto que nos chamou a atenção é o que o relatório chama de “armadilhas de produtos”, em que se percebe que muitos jovens utilizam as redes sociais não exatamente porque desejam, mas porque seus pares também as utilizam, o que cria o medo de exclusão social (FOMO).
Vale dizer que temos um ponto bem positivo, pois o relatório mostra um caminho de bom uso das redes. Segundo a pesquisa, sobretudo em países latino-americanos, incluindo o Brasil, há evidências de que, em sociedades onde já existem conexões mais densas e profundas com o mundo físico, as plataformas podem atuar como um suporte adicional para essa felicidade, ou seja, sem ocupar o papel de protagonista da felicidade ou da infelicidade.
Dessa forma, podemos concluir que os dados nos convidam a observar que não há apenas mal, assim como também não há apenas elementos positivos, e que a base da felicidade que buscamos reside, principalmente, nas experiências genuínas que temos com as pessoas.
No capítulo V de El Evangelio según el espiritismo, encontramos a afirmação de que a felicidade não é deste mundo. Assim, podemos crer que os dados do Relatório da felicidade nos sinalizam que, enquanto nossas buscas por essa tal felicidade se pautarem em relações superficiais, em algoritmos que nos preenchem com microrrecompensas momentâneas, é muito possível que acumulemos ainda mais infelicidade.
A recomendação dessa obra é sempre atual e importante ao nos dizer que a verdadeira e duradoura felicidade é a espiritual, alcançada pela evolução moral, pela paz interior e pelo desapego. Não temos dúvidas de que essa busca passa pelo nosso interesse genuíno em nos conectarmos, em fazermos o bem, em escolhermos boas fontes de conteúdo e em decidirmos pelo bom uso de todos os recursos que temos à nossa volta, incluindo as redes sociais e a tecnologia.
Referencias
KARDEC, Allan. El Evangelio según el Espiritismo. Traducción de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília, DF: FEB, 2019. Disponible en: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/WEB-O-Evangelho-segundo-o-Espiritismo-Guillon.pdf. Acesso em: 2 mar. 2026.
PINKER, Steven. Felicidade. En: PINKER, Steven. O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
UNIVERSITY OF OXFORD. World Happiness Report 2026. 2026. Disponível em: https://www.worldhappiness.report/. Acesso em: 2 abr. 2026.
WEBER, Charlotte Fox. What We Want: A Journey Through Twelve of Our Deepest Desires. London: Headline Publishing Group, 2022.