Pela primeira vez, as apostas esportivas en ligne assumiram o topo de um classement preocupante: tornaram-se a principal causa de endividamento das famílias brasileiras, superando fatores historicamente associados à inadimplência, como juros elevados, cartão de crédito e cheque especial.

O dado, revelado em estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School, não aponta apenas uma mudança no cenário econômico como também revela uma transformação no comportamento do brasileiro. Mais do que um problema financeiro, especialistas indicam que o avanço das chamadas “bets” está diretamente ligado a mecanismos psicológicos de alto poder viciante, potencializados por um contexto social que normaliza a busca por ganhos rápidos.
Segundo o psicólogo, hipnólogo e supervisor clínico Mauro Celso Lima, membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (Abrape) e das Associações Médico-Espíritas de São Paulo e Osasco, o funcionamento das plataformas de apostas não é aleatório, mas, sim, desenhado para prender o usuário. “O que sustenta esse comportamento é o chamado reforço intermitente, considerado, na Psicologia, o mais poderoso dos condicionamentos. A pessoa nunca sabe quando virá a recompensa, e isso a mantém tentando repetidamente”, explica.
O mecanismo é semelhante ao utilizado em jogos de azar tradicionais. A lógica combina recompensas imprevisíveis com a sensação de “quase ganhar”, o que aumenta significativamente a compulsão. “Quando o indivíduo fica muito próximo da vitória, a tendência é insistir mais. Isso cria uma ilusão de controle. Ele acredita que está perto de conseguir, quando, na verdade, está inserido em um sistema desenhado para que ele perca”, afirma.
Esse processo, segundo o especialista, não apenas favorece o vício, como também altera a percepção de risco. Em momentos de fragilidade emocional ou financeira, a aposta passa a ser vista como solução, e não como problema. “No desespero de pagar dívidas, a pessoa busca um caminho mais rápido, aparentemente mais fácil. Mas, pelo próprio funcionamento dessas plataformas, ela tende a se endividar ainda mais”, diz.
Cultura do atalho
Para o psiquiatra Rafael Latorraca, membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo, o fenômeno das apostas revela algo mais amplo: uma mudança de valores na sociedade contemporânea. “A ideia de enriquecer com esforço e ao longo do tempo passou a ser vista como ingenuidade. Em contrapartida, a sorte ganhou status de estratégia”, resume.
Na avaliação do médico, esse deslocamento ajuda a explicar por que as apostas encontram terreno fértil. Não se trata apenas de oferta, mas de demanda. “As plataformas operam com algoritmos sofisticados e estímulos constantes, mas a adesão a esse sistema também reflete uma disposição interna: o desejo de encurtar caminhos”, afirma.
“O coeficiente de impacto das bets no endividamento é quase o dobro da soma de todos os outros fatores combinados. Não foi a inflação. Não foi o desemprego. Não foi a ganância dos bancos, ao menos não desta vez. Fomos nós” (Rafael Latorraca).
Endividamento além do financeiro
Se, do ponto de vista econômico, o impacto já é significativo, especialistas alertam para consequências menos visíveis e igualmente graves. “O prejuízo não é só material. Há um desgaste emocional, familiar e psicológico muito grande. A pessoa entra em um ciclo de ansiedade, culpa e tentativa de recuperação que pode se tornar crônico”, observa Mauro Celso Lima (foto).

Mais do que uma questão individual, o avanço das apostas como principal causa de endividamento reflete um padrão coletivo marcado pela urgência, pela busca de resultados imediatos e pela dificuldade de sustentar processos mais longos e consistentes. Nesse contexto, o problema não começa no aplicativo, começa antes: na forma como lidamos com frustrações, expectativas e com a própria ideia de construção.
Como funciona o mecanismo do vício
O chamado “reforço intermitente”, citado por especialistas, é um dos modelos mais eficazes de condicionamento comportamental. Funciona assim: a recompensa é imprevisível. O usuário não sabe quando vai ganhar, mas sabe que pode ganhar. Essa incerteza aumenta o engajamento e leva à repetição do comportamento. Associado a isso, entra o efeito do “quase ganho”, que reforça a sensação de proximidade da vitória e estimula novas tentativas. O resultado é um ciclo difícil de interromper, especialmente em contextos de vulnerabilidade emocional ou financeira.
Imediatismo e recompensa rápida
O avanço das apostas esportivas como principal causa de endividamento no Brasil não é um fenômeno isolado e revela uma sociedade cada vez mais orientada pela lógica do imediatismo e da recompensa rápida. Nesse cenário, compreender os mecanismos por trás do comportamento, e os valores que o sustentam, torna-se fundamental para enfrentar um problema que vai muito além das finanças.
“O jogador não apenas entra no vício, ele é treinado a permanecer nele.” (Mauro Celso Lima)