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Toxicômanos em comunidade dominam o vício

Com a terapêutica do trabalho e do coração

Toxicômanos em comunidade dominam o vício

Folha Espírita – novembro de 1975

Marlene R. Severino Nobre

O grande trabalho de recuperação em Itapecerica

O Congresso Nacional de Pediatria, realizado no mês passado em São Paulo, dedicou parte do seu temário ao problema do tóxico, estudando-o em seus múltiplos aspectos, sobretudo, porque a juventude é a maior vítima de seu poder corrosivo e destruidor. Uma nação sucumbirá ante a anemia perniciosa que lhe ceifa o sangue generoso da juventude. E a droga, com seus tentáculos sedutores, constitui o agente dessa moléstia implacável. Técnicos do governo consideram fundamental o apoio dos professores na campanha de esclarecimento à infância, quanto ao perigo das drogas. Segundo estudos concluídos, essa ação esclarecedora junto às crianças, no período de 5 a 11 anos, seria de grande alcance quanto à prevenção do vício.

Em 1.000 pacientes toxicômanos estudados, o professor Emílio Astolfi, da Universidade de Buenos Aires, constatou em todos, sem exceção, problemas psíquicos e familiares anteriores. As questões econômicas, as mudanças radicais por que tem passado o mundo em pouco tempo, a fuga da realidade e, sobretudo, a ociosidade são apontadas como causas determinantes da toxicomania.

Tendo o conhecimento através de reportagem de nossa companheira Elsie Dubugras de um trabalho pioneiro realizado pelo Centro de Relações Humanas Nosso Lar, aqui bem próximo de São Paulo, para tratamento de viciados em drogas, visitamos a instituição, colhendo preciosos informes para os nossos leitores. Situada no km 35 da BR 116, a grande casa de recuperação mais se assemelha a uma residência de campo, em estilo colonial, situada no promontório dos sete alqueires de onde é possível abranger-se todo o vale. Há um clima de tranquilidade e pureza, facilitando a desintoxicação dos jovens que se embrenham pelos bosques, tratam dos animais, cuidam do plantio da terra, praticam esportes e dedicam-se à leitura sadia.

Batista Franco Rodrigues é o diretor do Centro de Relações Humanas Nosso Lar. Há uma [equipe] competente garantindo o sucesso de seu trabalho pioneiro. São dele os esclarecimentos de nossa reportagem.

O viciado deseja a cura

“O Centro de Relações Humanas Nosso Lar foi criado para suprir uma grande falha no tratamento e na reabilitação de viciados em drogas no Brasil. Nossa instituição só aceita toxicômanos que realmente desejem libertar-se do vício, porque não temos cadeados ou trancas em nossas portas. A nossa conduta terapêutica aqui é toda baseada no fortalecimento da vontade do viciado para que ele aprenda a vencer a si mesmo”.

FE: Batista, nesses seus 21 anos de experiência no campo da toxicologia, quais as causas que você considera mais comuns [e] determinantes do vício em drogas?

Batista: A mais comum, eu diria é a ociosidade. Cabeça vazia, oficina do diabo. Existem, porém, outros fatores: problemas de personalidade, familiares e sociais. Há um fator que devemos ressaltar: a curiosidade, muitos ingressam por essa via. Aqueles que têm problemas maiores junto à família ou na obtenção de empregos ou mesmo nas dificuldades naturais da vida, buscam a fuga da realidade, através das drogas. Sentem, por assim dizer, uma agressividade do meio ambiente e tentam fugir pelos tóxicos, assim como outros buscam o álcool.

FE: Vocês recebem doentes de todas as partes do Brasil?

Batista: Sim, mas o número maior de viciados tem vindo do Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ultimamente, temos recebido também muita gente do Sul, Curitiba, Porto Alegre etc.

Renovação da mente para curtir melhor

FE: Batista, o que há de diferente no tratamento que vocês desenvolvem aqui?

Batista: O ponto de destaque do nosso trabalho é a terapia ocupacional. Ao contrário de outras clínicas, nós procuramos ocupar todas as horas do internado. Ele pratica esportes, trabalha na agropecuária, dedica-se ao plantio de flores e legumes, enfim, dá ampla expansão à sua criatividade. Isso é profundamente terapêutico.

FE: O que você considera básico para a recuperação do toxicômano?

Batista: Bem, eu acredito muito, muitíssimo mesmo, que nós só conseguiremos mudar a atitude de alguém se nós ajudarmos essa pessoa a reformular princípios e conceitos. Não se trata de informação de fora para dentro, apenas no sentido de aconselhamento, mas, sim, de um método que possa despertar a pessoa para uma conscientização mais plena da vida. É preciso que ela aprenda inclusive a usar o sexo com equilíbrio e discrição. Os reeducandos devem aprender que a droga os impede de participar da vida naquilo que ela tem de melhor. É necessário despertar neles o interesse por curtir a existência de uma forma bem careta, procurando constituir família, abraçar os filhos, enfim, buscar nessas coisas simples o gozo e a felicidade. Em nossa experiência, temos observado que os doentes que se renovam por dentro, abraçado novos valores espirituais, progridem muito depressa.

FE: E vocês têm uma boa porcentagem de jovens que aceitam a Doutrina Espírita?

Batista: Felizmente. Confraternizo-me com os nossos jovens que sempre descobrem lições novas nos livros espíritas. Nossa alegria é imensa ao constatar que muitos deles, até bem pouco tempo, viviam nos piores caminhos do vício, muitas vezes no submundo do crime, e hoje estão abrindo suas mentes para uma vida nova.

Meios de comunicação

Volúpia por dinheiro

Ausência de fé

FE: Na sua opinião, qual a causa do aumento constante do uso de drogas em todo o mundo?

Batista: Muitos especialistas afirmam que esse aumento tem como uma das causas a propaganda de medicamentos pelos veículos de informação, por exemplo, a televisão. Se você tem um problema, não espere nem mais um minuto, vá até a farmácia mais próxima e resolva esse problema, tome algo. Existe uma condenação nos Estados Unidos para esse tipo de reclame. Um outro fator é a ação dos traficantes, sua volúpia insaciável de dinheiro. Por fim, a materialidade predominante nos dias de hoje. As religiões em sua grande maioria não satisfazem mais, elas não têm conseguido acompanhar a evolução dos tempos. A Doutrina Espírita ainda é professada por uma minoria, daí não termos o seu concurso valioso para a renovação de todas as ideias, restaurando a verdadeira concepção de Deus.

FE: Batista, você falou em laborterapia. Há um programa específico para cada caso? E o psiquiatra, como age?

Batista: Nosso psiquiatra é muito aberto na adoção de esquemas de tratamento e ele sempre age de comum acordo com os dois terapeutas ocupacionais de nossa instituição, procurando elaborar os planos para cada caso.

FE: Quanto tempo vocês demoram na recuperação de um doente?

Batista: Depende muito de cada caso. Mas invariavelmente, problemas dessa natureza não se resolvem assim de forma rápida. Em geral, demoram alguns meses. Há jovens que ficam 8, 10 meses, um ano e até mais.

A morte em qualquer esquina

FE: Na sua opinião, qual a campanha ideal de antitóxico?

Batista: Penso que deveríamos enfrentar os fatos sem subterfúgios. Antigamente, encarávamos o sexo como verdadeiro tabu, hoje fazemos o mesmo em relação ao tóxico. Deveríamos colocar três fatores preponderantes para o público em geral, alertando o jovem quanto ao caminho tenebroso que terá de percorrer, se resvalar para o tóxico.

  1. O caminho da prisão. Mais cedo ou mais tarde, o viciado é apanhado em flagrante e levado à Justiça, onde é condenado.
  2. O sanatório psiquiátrico. O tóxico ataca as células nervosas de forma irreversível, provocando o distúrbio mental.
  3. A morte. O esclarecimento mostrando o lado negativo do tóxico deve incluir essa realidade: a morte em qualquer esquina por um traficante ou um marginal.

Uma campanha psicologicamente bem estruturada, mostrando o lado terrível da doença, daria muito bons resultados. Acho que nenhuma revista, jornal ou qualquer órgão de comunicação deve referir-se às questões dos devaneios, irresponsavelmente, sugerindo que as drogas podem levar às nuvens, às alturas etc. Nós estamos preparando, inclusive, um grupo de jovens ex-viciados para dar depoimentos. Um testemunho desse tem muito valor.

Responsabilidade sempre

FE: Não há dúvidas. Agora, Batista, gostaria que você dissesse como deve proceder na família a mãe que constata um caso doloroso como esse.

Batista: Acho que a primeira coisa que a família deve fazer é levar o filho a assumir a responsabilidade de seus próprios atos. Notamos que a família procura abafar com panos quentes casos como esse, quando na realidade deveria enfrentar a situação para que o faltoso se motive interiormente, a fim de mudar. Na experiência dos Alcoólatras Anônimos, por exemplo, com centenas de milhares de casos que eles acompanham, constataram que, enquanto o alcoólatra não chegar ao “fundo do poço”, ele não deseja sair do mesmo. Assim, a família não deve “quebrar o galho”, procurando sempre desculpar. É preciso propor duas opções: ir para uma comunidade terapêutica ou internar-se em hospital. É necessário tomar uma medida sempre.

***

Ao término da entrevista, lembrávamos das nossas crianças brincando no parque. Elas também estão crescendo. Por tudo quanto aprendemos na Comunidade Nosso Lar, uma certeza ficou muito nítida: é preciso traçar para elas o roteiro do trabalho e da disciplina, da caridade e da fé, enquanto é tempo.

Opina o psiquiatra Alberto Lyra sobre o Centro de Relações Humanas Nosso Lar

Acho que o Centro de Relações Humanas Nosso Lar tem todas as condições para oferecer um ideal de tratamento para a toxicomania, porque lá o internado não vai apenas receber o calor humano, como vai ter a experiência do trabalho em grupo. Esse trabalho em conjunto vai dar a ele o espírito de ideal por tudo quanto ele recebe em Nosso Lar. Além disso, o rapaz vai mudar completamente sua temática de vida habitual; começa a enxergar, ter outras perspectivas de vida. E isso é realmente importante, porque são duas coisas que o indivíduo precisa ter para se tornar um cidadão realmente útil à pátria e à humanidade: receber amor para poder dar amor e ter um ideal social.

Tudo isso ele encontra em Nosso Lar. Há uma transformação completa da personalidade do rapaz porque ele mudou o modo de enxergar a vida, em lugar de ser totalmente egocêntrico, inferiorizado, buscando uma fuga pelo tóxico, ele vai expandir a sua personalidade e dar vida à personalidade, trabalhando para a humanidade e para os outros, em geral.

Desejo ressaltar que me considero amigo e admirador do Batista, cuja trajetória acompanho desde o princípio. É uma obra que vale pelos homens que trabalham nela.

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