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O artista que envelhece: o que a demência nos ensina?

Recentemente, o cantor e músico Milton Nascimento (foto) foi diagnosticado com Demência por Corpos de Lewy (DCL) – uma doença neurodegenerativa, progressiva e incurável, que tem como sinais e sintomas principais: alucinações visuais, parkinsonismo (conjunto de sinais que se manifestam por tremores, rigidez e lentidão de movimentos), flutuações cognitivas, distúrbios comportamentais do sono REM (movimento rápido dos olhos), disautonomia (como constipação, hipotensão ortostática e incontinência urinária) e sensibilidade a antipsicóticos ou neurolépticos.

Ao contrário da Doença de Alzheimer, que tipicamente apresenta perda de memória como seu primeiro e mais proeminente déficit cognitivo, a DCL caracteriza-se por comprometimentos precoces da atenção e das funções executiva e visuoespacial, com a memória afetada posteriormente no curso da doença. Os primeiros sintomas incluem dificuldade para dirigir, como, por exemplo, perder-se, calcular mal as distâncias ou não enxergar placas de trânsito e outros veículos, além de prejuízos no desempenho profissional.

Foi o filho de Milton Nascimento quem revelou, pelas redes sociais, o quadro de saúde de seu pai. E foi além, deixando claro que aquele seria, provavelmente, o último pronunciamento em relação à saúde do cantor: “Tem sido uma batalha diária, uma dor intensa e um vazio enorme no peito, pois, de alguma forma, o meu melhor amigo está me deixando aos poucos. Em alguns momentos, enquanto assisto televisão com ele, em meio ao silêncio, ele puxa e segura a minha mão. Também tem sido comum que ele só aceite fazer algumas refeições quando eu estou ali o incentivando… Acho que essas têm sido as maneiras dele me dizer o que, em alguns momentos, ele não vem conseguindo expressar através das palavras. Venho tentando retribuir todo o bem, o amor, o cuidado e o carinho, dando o máximo de dignidade e conforto que ele pode e merece ter nesse momento. Desde o momento em que o universo nos colocou um no caminho do outro, somos inseparáveis e invencíveis – e seguiremos assim enquanto estivermos juntos nesta vida”.

Atualmente, vivemos a “década do envelhecimento saudável” (2021-2030), uma agenda de ações liderada pela Opas e pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de sensibilizar governos, políticos, gestores em saúde, agências internacionais, profissionais e a sociedade civil para melhorar a vida de pessoas idosas, de suas famílias e comunidades.

Ao mesmo tempo, de forma inédita, atravessamos um período de transição demográfica – cada vez mais as famílias têm menos filhos, e a população idosa supera o número de jovens entre 15 e 24 anos. Com cerca de 15,6% da população brasileira composta por pessoas idosas, os desafios quanto aos cuidados de saúde, segurança, bem-estar, suporte social e preservação da autonomia e independência dessa população são enormes e tendem a crescer.

Pessoas com demência, seus familiares e cuidadores necessitam de ações concretas e seguras para que possam ter seus direitos garantidos e acesso universal à saúde. Os números impressionam: estima-se que cerca de 1,8 milhão de pessoas vivam com demência no Brasil, representando aproximadamente 8,5% da população idosa. Até 2025, esse número poderá triplicar. Com isso, surgem inevitavelmente alguns questionamentos:

  • E se eu tiver demência no futuro? Como gostaria de ser cuidado por quem?
  • Quais são as causas espirituais da demência?
  • Por que isso está acontecendo com o meu familiar?
  • O que posso fazer para lidar com essa situação?

Sem a intenção de responder de forma definitiva a essas questões, surge o desejo de trazer algumas reflexões à luz da Doutrina Espírita sobre o tema da dor e do sofrimento. O adoecimento físico ou mental é, por um lado, o cadinho da regeneração e da cura do Espírito; por outro, é um estado momentâneo de perdas, angústias, dores e pesares.

O Evangelho segundo o Espiritismo ensina-nos a importância da paciência e da compreensão da dor como oportunidade de despertamento. A vida tem suas dificuldades e limitações – como alfinetadas que nos sensibilizam e provocam dor –, mas também nos convida a olhar para os deveres outrora impostos e para as compensações futuras.

Momentos de adoecimento podem representar sinalizações para aprendizados coletivos, reajustes familiares, necessidade de abnegação para cuidar de alguém ou reconhecimento de que precisamos receber cuidados. Podem também nos lembrar da fragilidade do corpo físico e de nossa finitude, levando-nos a enxergar os valores espirituais e morais em detrimento daqueles em que o materialismo tenta sobrepujar o âmago do ser.

Enfim, tais experiências podem ser disparadores para o despertar em nós do sentimento de interdependência, mostrando que nosso futuro depende da solidariedade entre as gerações. O adoecimento – mesmo grave e limitante – jamais apaga em nós o que fizemos de bom para os semelhantes, o nosso legado, aquilo que deu propósito à trajetória de nossas vidas.

A luz não se apaga jamais, e a morte nunca será o fim, mas o recomeço.

Luís Gustavo Mariotti é médico com especialização em Geriatria pela Escola Paulista de Medicina, com área de atuação em Medicina Paliativa, e coordenador do Departamento de Cuidados Paliativos da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil).

Referência

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: FEB, 2019. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/WEB-Livro-dos-Esp%C3%ADritos-Guillon-1.pdf. Acesso em: 29 out. 2025.

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