6 de Março de 2026

Generic selectors
Correspondência exata
Pesquisar no título
Pesquisar no conteúdo
Post Type Selectors
Pesquisar em Edições
Pesquisar em Edições Antigas
Pesquisar em Notícias e Podcasts

06/03/2026

Generic selectors
Correspondência exata
Pesquisar no título
Pesquisar no conteúdo
Post Type Selectors
Pesquisar em Edições
Pesquisar em Edições Antigas
Pesquisar em Notícias e Podcasts

Entre produtividade e sentido: um olhar sobre a saúde mental

LUÍS GUSTAVO MARIOTTI

Recentemente, um estudo publicado na revista científica The Lancet demonstrou que a carga global de transtornos mentais aumentou de forma expressiva nas últimas três décadas. Em 2019, dados de pesquisas já apontavam que aproximadamente 12% da população mundial sofria de algum transtorno mental. Com a pandemia de Covid-19, a prevalência de condições como depressão e transtornos de ansiedade cresceu de maneira significativa, agravando um quadro que já se mostrava preocupante.

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que cerca de 970 milhões de pessoas no mundo viviam com transtornos mentais, sendo que aproximadamente 80% residiam em países de baixa e média renda. Ainda assim, a prevalência em países de alta renda, como Austrália, Estados Unidos e Canadá, mostrou-se elevada. Esse cenário tem gerado impacto expressivo em termos de morbidade e morte prematura, configurando um desafio global de saúde pública.

Uma crise silenciosa que cresce no mundo

No Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social, mais de 4 milhões de pessoas foram afastadas do trabalho em 2025. Desses afastamentos, cerca de 500 mil estiveram relacionados a problemas de saúde mental, ficando atrás apenas de condições como dor na coluna, hérnia de disco e alguns tipos de fraturas em membros inferiores.

Trata-se de um aumento de 15% em relação a 2024, representando o maior número de afastamentos por transtornos mentais nos últimos dez anos. Além da depressão e da ansiedade, observou-se crescimento nos afastamentos relacionados a transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.

Trabalho, estresse estressante e adoecimento psíquico

Diante desse cenário, impõe-se a seguinte pergunta: por quê? Alguns especialistas apontam que mudanças profundas no modo de vida e, sobretudo, no mercado de trabalho têm contribuído de forma decisiva para esse quadro. Segundo reportagem recente do portal G1, psiquiatras têm sinalizado que vínculos empregatícios cada vez mais precários, longas jornadas de trabalho e a constante necessidade de adaptação às novas tecnologias produzem um estado persistente de estresse crônico.

Associado a esse estresse, diversos outros problemas de saúde podem ser desencadeados, como doenças cardiovasculares, ansiedade, depressão, síndrome de burnout, distúrbios do sono, alterações do sistema imunológico, problemas digestivos, além de prejuízos cognitivos, incluindo dificuldades de memória e concentração. “A lógica da produtividade sem limites tem produzido não apenas resultados econômicos, mas um adoecimento coletivo silencioso”.

O custo invisível da produtividade extrema

Estima-se que a depressão e a ansiedade resultem em uma perda de produtividade global da ordem de 1 trilhão de dólares por ano. No mundo, cerca de 45% da população afirma ter grande preocupação com a saúde mental. No Brasil, de acordo com a pesquisa Health Service Report de 2025, aproximadamente 52% da população aponta o bem-estar emocional como sua principal prioridade.

O mercado de trabalho, o aumento do custo de vida, a incorporação acelerada de novas tecnologias, o surgimento de novas profissões, a expansão da tecnologia da informação, a competitividade e a exigência crescente por produtividade transformaram profundamente a vida cotidiana nas últimas décadas. A que custo? Os dados sobre afastamentos por incapacidade laboral parecem responder por si.

Jovens e pessoas idosas sem centro de vulnerabilidade emocional

Outros dados igualmente alarmantes são apresentados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Entre os jovens, 1 em cada 7 enfrenta alguma condição relacionada à saúde mental; cerca de 50% dos transtornos mentais têm início antes dos 18 anos; o suicídio configura-se como a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 24 anos nas Américas.

Entre as pessoas idosas, aproximadamente 14% convivem com transtornos mentais, especialmente depressão e ansiedade. Atualmente, observa-se grande dificuldade em estabelecer, na rotina cotidiana, momentos verdadeiramente salutares, como pausas regulares, uso do tempo livre para hobbies, maior interação social e construção de vínculos significativos com amigos e familiares.

Quando o cotidiano deixa de ser protetor

Quando eu era criança, recordo-me de que era comum meus avós e pais saírem de casa para conversar por alguns minutos – ou até horas – com os vizinhos, mesmo após um dia de trabalho. Vivíamos mais conectados uns aos outros, com menor isolamento social. Aos finais de semana, aproveitávamos mais o tempo em família, trocando ideias, compartilhando experiências, cozinhando em casa, celebrando datas comemorativas e fortalecendo os laços familiares. As famílias eram maiores, e a convivência, mais frequente.

Esses fatores funcionavam como importantes elementos de proteção contra o estresse. “Quando o trabalho ocupa todo o espaço da vida, o sentido se perde, e a saúde mental cobra a conta”.

Espiritualidade: sentido, propósito e proteção emocional

O leitor também pode se perguntar: onde entra a espiritualidade nesse contexto? A espiritualidade pode ser compreendida como a busca por sentido, propósito e transcendência, podendo ou não estar associada a uma religião. Ela envolve valores, crenças, conexões e esperança.

Evidências científicas robustas indicam que pessoas com maior nível de espiritualidade apresentam menor prevalência de depressão, menor gravidade dos sintomas depressivos e melhor resposta ao tratamento. Além disso, maior espiritualidade associa-se a menor risco de abuso de álcool e drogas ilícitas, bem como a taxas mais baixas de suicídio.

Práticas espirituais, como meditação, oração e contemplação, contribuem para a redução do estresse e da ansiedade ao promoverem maior resiliência emocional, redução dos níveis de cortisol e ativação de circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao vínculo.

Caminhos possíveis para cuidar da saúde mental

Diante desse panorama, quais estratégias podem ser adotadas para a prevenção e o manejo do estresse no trabalho e na vida cotidiana? Algumas recomendações importantes incluem:

  • cuidar adequadamente do sono, praticar atividade física regular e manter uma alimentação saudável, respeitando horários regulares;
  • buscar estabelecer vínculos sólidos com amigos, familiares e a comunidade, evitando o isolamento social;
  • reduzir o tempo de uso de telas, especialmente de dispositivos móveis, uma vez que o uso excessivo está associado a maior ansiedade e dificuldade de concentração;
  • realizar pausas conscientes ao longo do dia, reservando tempo para conversar, respirar, meditar ou rezar;
  • procurar ajuda profissional ao perceber sinais como tristeza persistente sem causa aparente, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade, alterações do sono, dificuldades recorrentes de memória, mudanças importantes no apetite, sensação de desvalia, insatisfação constante, fadiga persistente mesmo após descanso, bem como pensamentos negativos do tipo “não vale a pena viver como estou vivendo”;
  • evitar a automedicação, especialmente o uso de psicofármacos, sem orientação médica;
  • cultivar pensamentos e ações cotidianas que promovam bem-estar, propósito e sentido de vida, como a prática da gratidão e o sentimento de utilidade ao próximo. O trabalho voluntário em causas significativas pode ser um importante fator protetor contra o sofrimento psíquico;
  • realizar leituras edificantes, exercitar o otimismo realista e manter viva a esperança.

Luís Gustavo Mariotti  é médico com especialização em Geriatria pela Escola Paulista de Medicina, com área de atuação em Medicina Paliativa, e coordenador do Departamento de Cuidados Paliativos da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil).

Referências

CASEMIRO, Poliana; MOURA, Rayane. Brasil tem mais de 2 mil profissões com afastamentos por transtornos mentais; veja se a sua está na lista. G1, 1º fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/02/01/profissoes-com-afastamentos-por-transtornos-mentais-lista.ghtml. Acesso em: 1º fev. 2026.

COLLINA, Cris. Espiritualidade e Saúde Mental: o que o CBP 2025 revelou sobre essa conexão essencial. Hospital Santa Mônica, 2 dez. 2025. Disponível em: https://hospitalsantamonica.com.br/espiritualidade-saude-mental-cbp-2025/. Acesso em: 30 jan. 2026.

IMENES, Martha. Depressão e ansiedade causam perdas de US$ 1 trilhão. Correio da Manhã, 21 jan. 2026. Disponível em: https://www.correiodamanha.com.br/economia/2026/01/251174-depressao-e-ansiedade-causam-perdas-de-uss-1-trilhao.html. Acesso em: 30 jan. 2026.

IPSOS: 52% dos brasileiros dizem que saúde mental é o principal problema de saúde do país. G1, 7 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/10/07/ipsos-saude-mental.ghtml. Acesso em: 30 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Saúde mental dos adolescentes. 2026. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/saude-mental-dos-adolescentes. Acesso em: 30 jan. 2026. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Saúde mental de idosos. 8 out. 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-of-older-adults. Acesso em: 30 jan. 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Aproveite Esta Oferta!

Conheça as produções da Editora FE

Assinatura Open Sites