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Quando o mal vira pauta e também nos pauta

“O comentário em torno do mal, ainda e sempre, é o mal a multiplicar-se.” A advertência, presente em Conduta espírita, de André Luiz, é direta e desconfortável. Não trata apenas do comportamento individual, mas da dinâmica de propagação do mal. Na mesma linha, em Agenda cristã, também de André Luiz, a orientação é ainda mais incisiva: “o mal não merece comentário em tempo algum”.

À primeira vista, a ideia parece impraticável. Como não comentar o mal em um mundo atravessado por guerras, abusos, violência e injustiças que nos chegam, em tempo real, pelas telas? Talvez o ponto não seja o silêncio absoluto, e sim o entendimento do papel que desempenhamos ao consumir, reagir e, principalmente, repercutir esse conteúdo.

Informação e sofrimento

Nunca foi tão fácil estar informado. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil tornar-se um agente involuntário de amplificação do sofrimento. O modelo de funcionamento das redes sociais não é neutro: conteúdos que despertam indignação, medo ou revolta geram mais engajamento e, portanto, mais alcance.

O psiquiatra Leandro Nunes, da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), observa que as redes sociais não priorizam precisão ou profundidade da informação, mas retenção de atenção, engajamento e tempo de permanência diante da tela. “Os algoritmos aprendem rapidamente que conteúdos com medo, indignação, conflito e choque moral geram mais ativação emocional, o que aumenta a liberação de dopamina e prende a atenção”, explica.

Nesse processo, a informação tende a chegar fragmentada, simplificada e consumida em alta velocidade, sem tempo para elaboração crítica. “Isso leva a uma compreensão rasa e pobre da realidade”, afirma. Outro efeito importante é a criação das chamadas bolhas algorítmicas. Ao identificar preferências emocionais, crenças e padrões de comportamento, as plataformas passam a entregar conteúdos cada vez mais parecidos entre si. A consequência é uma percepção distorcida do mundo.

Leandro Nunes exemplifica: “Quando uma pessoa pesquisa sobre violência urbana, o algoritmo começa a entregar constantemente vídeos de assaltos, crimes e tragédias. Com o tempo, ela passa a sentir que vive em um perigo permanente, mesmo quando os dados reais não indicam esse cenário extremo”.

Nesse contexto, o alerta de André Luiz deixa de ser apenas moral e passa a ser estrutural: comentar o mal não é apenas descrevê-lo, é contribuir para sua circulação. O impacto disso é mais que social, é íntimo. A exposição contínua a notícias negativas produz um efeito cumulativo: ansiedade, sensação de impotência, desgaste emocional. O mal, repetido, deixa de ser apenas informação e passa a ser experiência.

No entanto, ignorar completamente a realidade também não parece solução. Para o psiquiatra, há uma diferença importante entre discernimento e alienação: “Não devemos fechar os olhos para a dor do próximo quando se pode ajudar. No entanto, saber de uma guerra a dez mil quilômetros de distância e passar o dia consumindo imagens de corpos e escombros não nos torna mais conscientes”.

Segundo ele, a recusa permanente em olhar para a realidade pode até funcionar como defesa psíquica momentânea, mas, quando cronificada, empobrece a capacidade de julgamento, empatia e ação.

Em Sexo e destino, André Luiz propõe uma espécie de hierarquia de contenção. O mal, afirma o autor espiritual, deve merecer apenas a consideração necessária à sua correção. Se ainda não conseguimos impedir que ele nos alcance emocionalmente, é preciso, ao menos, não alimentá-lo no pensamento. E, se isso ainda não for possível, torna-se imperioso não levá-lo à palavra, para que a ideia infeliz não ganhe vida própria e passe a agir por nossa conta.

A lógica é clara e profundamente atual: quando o mal é verbalizado, ele deixa de ser apenas percepção e se transforma em narrativa. E narrativas, quando compartilhadas, constroem realidades. Isso não significa ignorar problemas ou abdicar do dever de informar. O jornalismo, aliás, enfrenta aqui uma tensão legítima: como cumprir sua função social sem se tornar, ainda que involuntariamente, vetor de amplificação do próprio mal que denuncia?

Talvez a resposta esteja menos no conteúdo em si e mais na forma como nos relacionamos com ele. Há uma diferença essencial entre informar e imergir. Entre compreender e se deixar capturar. Entre denunciar e alimentar. Para Leandro Nunes, a questão central não é “ver ou não ver”, mas como temos nos colocado diante da realidade: “O que se propõe não é não ver, mas transformar a forma de olhar. Escolher como, quando e quanto se expor”.

Filtros em prol da saúde mental

Na prática, ele sugere três filtros simples e difíceis ao mesmo tempo: observar o que se consome, perceber o que aquilo produz internamente e refletir antes de compartilhar: “Se informe, mas com limites claros; evite exposição continuada; prefira fontes confiáveis e evite ciclos infinitos de rolagem”. E acrescenta um critério clássico atribuído a Sócrates: “Isso é verdade? É bom? É útil?”

O segundo ponto, segundo o psiquiatra, é observar a própria reação emocional: “Se a notícia gera apenas revolta, medo ou impotência, sem produzir compreensão ou ação, ela já pode estar ocupando espaço demais”.

O terceiro filtro envolve responsabilidade sobre aquilo que se dissemina: “Antes de compartilhar, vale perguntar: isso esclarece ou apenas amplifica barulho? Ajuda alguém ou é apenas descarga emocional? Está contribuindo ou só reagindo?”

No fundo, a discussão talvez seja menos sobre tecnologia e mais sobre consciência. Em uma era de hiperestimulação emocional e atenção sequestrada, saúde mental pode significar justamente a capacidade de permanecer em contato com a realidade sem ser dominado por ela. Leandro resume essa tensão em uma frase simples: “É o estar no mundo, sem ser do mundo”.

Talvez seja esse o grande desafio do nosso tempo: não fechar os olhos para o mal, mas também não permitir que ele se instale dentro de nós como morada permanente. No fim, a questão central não é apenas o volume de sofrimento que circula pelas telas, mas o espaço que damos a ele dentro da própria consciência. E esse espaço, diferente do feed, ainda está sob nossa responsabilidade.

Referências

LUIZ, André (Espírito). Agenda cristã. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 45. ed. Brasília, DF: FEB, 2019.

LUIZ, André (Espírito). Conduta espírita. Psicografado por Waldo Vieira. Brasília, DF: FEB, 2019.

LUIZ, André (Espírito). Sexo e destino. Psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. Brasília, DF: FEB, 2020. (Coleção A Vida no Mundo Espiritual, 12).

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