É muito interessante a abordagem do Espírito André Luiz, no livro Sinal verde, na lição “Mortos vivos”, na qual o autor revela que a mente humana se condicionou, de maneira geral, a crer que “a madureza da alma é antecâmara da inutilidade, e eis muita gente a se demitir, indebitamente, do dever que a vida lhe delegou”.

Sabedores de que a vida continua e o Espírito evolui ao longo das sucessivas encarnações, temos de admitir que a idade madura é o melhor momento da pessoa encarnada, pois, com a experiência que acumulou durante os anos vividos, não deveria se consumir com coisas que não são realmente importantes. Apesar disso, infelizmente, nos deparamos com vovôs e vovós que acreditam que, com a velhice, o melhor é “pendurar as chuteiras” e esperar a hora de “passar desta para outra”, de acordo com o dito popular. Desperdiçam as melhores oportunidades de suas vidas, oportunidades que não conseguiram ter na juventude, nem na vida adulta, cheia de lutas e sacrifícios.
As pessoas idosas, de modo geral, dispõem do tempo que antes não dispunham, devido às intensas jornadas de trabalho que tinham de cumprir; outras já não precisam enfrentar a árdua rotina das donas de casa na organização do lar e na criação dos filhos. No entanto, poucos conseguem perceber as bênçãos das horas atuais em suas vidas. Como nos diz André Luiz, no mesmo texto, “esquecem-se de que o fruto madurecido é a garantia de toda a renovação da espécie”. Deixam-se abater pelo desânimo e preferem desperdiçar essa época áurea da vida, acreditando-se incapazes e estacionando na compaixão por si mesmos.
Nesse sentido, percebo três perfis de pessoas idosas. O primeiro diz respeito àquelas que se deixam abater, vencidas pelas doenças, acreditando que estão no fim e que o que lhes resta é esperar sempre o pior, pois, afinal, o corpo já está velho e as doenças vão tomando conta. Enfim, julgam-se ultrapassadas. O segundo perfil é o daquelas que, igualmente às primeiras, estão convencidas de que já estão velhas e, portanto, cobram e exigem, de forma ostensiva, respeito, compreensão e paciência dos mais jovens. E o terceiro perfil é o daquelas que, apesar de não estarem tão ágeis como antes, ou de possuírem alguma doença a exigir tratamento e medicação contínua, envolvem-se em inúmeras atividades e são requisitadas pelos jovens interessados em ouvir a voz da experiência. São essas que conseguem aproveitar a experiência acumulada em ações, conselhos e produtividade nas situações mais simples da vida.
Essa reflexão me faz lembrar a história de uma amiga, extremamente cuidadosa com sua genitora, que, apesar da idade avançada e das doenças controladas por medicamentos e outros cuidados, é lúcida e goza de relativa qualidade de vida. No entanto, a querida senhora solicita atenção em tempo integral da filha, com exigências, às vezes, pueris. Reclama de tudo e ignora as demais responsabilidades da minha amiga, colocando-se no centro do Universo.
Certo dia, a senhora foi submetida a uma cirurgia para a retirada de um tumor que, após a biópsia, constatou-se ser benigno. A filha licenciou-se do trabalho para dar toda a retaguarda na convalescença da mãezinha. Quando esta estava restabelecida, minha amiga, após adotar todas as providências para garantir a assistência à sua mãe – que mora com ela, o marido e uma empregada de confiança –, voltou às suas atividades profissionais. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de a mãe passar a exigir que a filha se aposentasse do trabalho para cuidar exclusivamente dela. Passou, então, a fazer todo tipo de chantagem emocional, desestruturando o equilíbrio familiar.
Certa vez, em desabafo, pediu-me a opinião a respeito desse verdadeiro drama que estava vivendo. Naquele momento, eu só poderia oferecer uma palavra de ânimo e paciência, baseada nas lições de Jesus e dos grandes mentores da nossa doutrina. Também lhe disse que deixar o trabalho profissional não iria, de modo algum, resolver o impasse, ao contrário, poderia agravar ainda mais a intransigência de sua mãe. O melhor seria ouvir e deixar para lá, pois, à medida que a senhora percebesse o pouco efeito de suas investidas, não encontraria motivos para novas exigências. Por outro lado, sugeri também que elas passassem a realizar um trabalho voluntário em asilos, hospitais ou outras instituições de assistência social.
E assim elas fizeram. Engajaram-se em um trabalho em uma instituição de acolhimento de mulheres com filhos, sem abrigo, procedentes de abusos e outras situações de risco social. Passado algum tempo, ficou evidente que foi uma oportunidade maravilhosa para ambas, pois minha amiga e sua mãe estavam profundamente envolvidas e unidas no nobre trabalho de servir ao próximo. Acreditem: a senhora cessou as exigências descabidas.
Referência
LUIZ, André (Espírito). Sinal verde. Psicografado por Francisco Candido Xavier. 54. ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 2009